(Este artigo foi elaborado em conjunto com a minha amiga e colega de liceu Baby Deluxe > http://www.bbdeluxe.blogspot.com/.) A Sociedade e a Homossexualidade
Partimos do pressuposto que, em sociedade, nos dias de hoje, vivemos livremente e temos igualdade de direitos. Estamos, teoricamente, em evolução. Mas será mesmo assim? Retiremos então o véu para descobrirmos a derradeira verdade que nos mostra uma sociedade predominantemente conservadora, retrógrada, com ideias preconceituosas, moralista, que se rege segundo os dogmas da religião e tradicionalista. Reina nesta sociedade o ideal egocêntrico “standartizado” duma nova geração em que todos devemos agir em conformidade com o “normal”. Mas afinal, o que se pretende designar como “normal”? O que é na realidade agir “normalmente”? Pois bem, não existe o “normal”, pois esse “normal”, idealizado por mentalidades egocêntricas e conservadoras, não passa nem nunca passará de uma utopia criada para estipular o que a maioria prefere e a forma como essa mesma maioria acha que devemos agir para não sermos socialmente incorrectos, ou seja, diferentes, o que ideologicamente se pode chamar “anormalidade”. Vamos partir do pressuposto que existem dois indivíduos: o indivíduo A, conservador e moralista, extremamente devoto à sua fé e “socialmente correcto”; e o indivíduo B, um homossexual assumidamente pagão, que luta por adquirir o que socialmente lhe é negado, ou seja, igualdade de direitos em relação aos heterossexuais, os “normais”. O primeiro indivíduo, do alto da sua arrogância moralista, repudia o indivíduo B pois considera uma heresia o facto de este se achar no direito de, por exemplo, casar com outro homem pela lei de Deus. Para ele, o casamento é uma tradição social de origem religiosa, segundo a qual o homem deve unir-se em matrimónio com uma mulher, procriar e dar continuidade à raça humana. Pergunta-se então o indivíduo B perante tanto preconceito, conservadorismo e fé nas interpretações da igreja das leis de Deus inscritas na Sagrada Escritura: por que motivo podem as mulheres perder a virgindade antes do casamento e, como se isso não fosse suficientemente pecaminoso, ainda entrarem vestidas de branco, símbolo de pureza da noiva, na igreja como se ainda o fossem? Como pode existir divórcio se, supostamente, perante a lei de Deus, só este os pode separar? Como pode o indivíduo A dizer que o casamento é uma tradição religiosa se esse mesmo homem tem relações com mais do que uma mulher ao mesmo tempo antes e até depois de se unir à sua eterna esposa pelas leis do matrimónio? Não temos nós igualdade de direitos? Porque mistura esta sociedade religião e Estado se são teoricamente duas realidades que se regem por leis paralelas? Se analisarmos a mesma Bíblia, em que se baseia o indivíduo A, diz que o homem nasce livre e com iguais direitos e, para além disso, diz também que devemos amar-nos uns aos outros, independentemente de quem seja esse outro, o que subentende que não tem necessariamente que ser homem ou mulher. Será então correcto humilhar, agredir e desprezar alguém por nutrir sentimentos por alguém do mesmo sexo e privar essas duas pessoas de contrair matrimónio se o seu amor é tão ou mais verdadeiro e puro que os outros? A resposta é, obviamente, não. Perante a lei desse mesmo Deus, somos todos iguais. Posto isto, o indivíduo A contra-argumenta dizendo pura e simplesmente que a sociedade não está de todo preparada para enfrentar a realidade homossexual e que, portanto, não é urgente alterar a lei nem informar a própria sociedade sobre a verdadeira realidade homossexual, até porque existe uma grande percentagem de idosos no nosso país que consideram a homossexualidade uma infâmia, uma heresia, um atentado à moral, aos bons costumes e à normalidade. Mas, vendo bem, será que existe um momento certo para “abrir os olhos” à sociedade? Não será isso impingir a essa mesma sociedade uma mentalidade ignorante, homofóbica e convencida de que B é diferente em tudo apenas por se sentir física e psicologicamente atraído por alguém do mesmo sexo? Não estará deste modo a própria sociedade a encobrir uma realidade que nem de agora é? Se olharmos para o passado, em termos históricos, os gregos e os romanos eram na sua grande maioria homossexuais e usavam a mulher apenas e unicamente para deixar descendência. Os próprios imperadores, que na sua época eram a entidade máxima, eram maioritariamente homossexuais. Alexandre Magno, o grande conquistador, era homossexual, o que só mostra que um homossexual não é nem diferente, nem muito menos alguém intelectualmente inferior ou anormal. Vamos agora analisar estes dois indivíduos. Poderíamos representá-los, naturalmente, como personagens tipo da sociedade. Os indivíduos do tipo A acham por bem criticar os indivíduos do tipo B, desprezá-los e até mesmo agredi-los, tanto física como psicologicamente. Em termos reais e actuais de opressão à liberdade, temos o caso de duas mulheres que tentaram casar-se no nosso país e esse direito, o direito casar com a pessoa que se ama, foi-lhes negado. Neste caso temos uma oposição dentro do próprio sistema legislativo. Por um lado temos uma Constituição que diz explicitamente que ninguém pode nem deve ser discriminado por ser diferente, mas por outro temos uma legislação que expressa claramente a homofobia nacional, dizendo que apenas casais heterossexuais têm direito ao casamento civil. É, sem dúvida, contraditório e resulta na opressão à liberdade humana de dois seres humanos que nasceram da mesma forma que qualquer outro, sem qualquer anormalidade física ou psicológica. Pior é se pensarmos que ser-se homossexual nem sequer é uma escolha ou uma opção, como muitos teimam afirmar, mas algo que nasce com a pessoa. Como exemplos de outros factos reais temos o acontecimento que se deu no Porto, onde um grupo de jovens, com idades compreendidas entre os treze e os dezasseis anos, espancaram um sem abrigo, antigo travesti e homossexual. O mais chocante é o facto de apenas um deles se poder sentar no banco dos réus para ser julgado justamente, pois por incrível que pareça só um deles tinha mais de dezasseis anos. Temos também a presença de comportamentos idênticos numa organização que se intitula de “skinheads”, organização essa que se manifesta contra tudo o que é diferente do pressuposto termo de “normal”, desejando até a morte a pessoas que nunca lhes fizeram mal nenhum. Diversas vezes esses grupos neo-nazis e sanguinários espancam até à morte homossexuais, como os jovens do Porto fizeram, e outras pessoas diferentes deles, como os negros. Assim, concluímos que a nossa sociedade necessita urgentemente de sair da escuridão, deixar de pensar que existe realmente o “normal” e aceitar de uma vez para sempre que ninguém é diferente ou deve ser tratado de forma diferente apenas por ter uma orientação sexual diferente. Vamos pensar um pouco mais nos dois lados da questão e sermos menos egocêntricos com quem é igual, por natureza, a nós? |