sexta-feira, junho 27, 2008


Melancolia

Olho a pena adormecida no encanto
de ser eterna na sua leveza
e nas palavras manchadas de negro.
É submissa à vontade do criador;
arde na sua revolta embriagada
por desejos e sonhos adormecidos.

Gulosa, não me olhes assim!
A tinta com que te lambes inflacionou…
Bebe antes do meu sangue
que é amargo e quente como o vinho;
consome-o até que o corpo gele,
para que se liberte a alma da melancolia…

…de ser refém das amarras do tempo.

domingo, junho 15, 2008

I Need Love - Anime Mix

Arde-me a pele, arde-me a vontade, arde-me a alma e tudo o que vive na minha inexistência. Não sou mais que areia e pó da insanidade de ser gente, um ser humano, um mortal que se constrói e destrói em castelos de areia derrubados pelas vagas perdidas. E o corpo morre comigo, mais um pouco (de novo), para se desfazer na espuma das ondas e ser livre.
Não quero ser o sal que flúi e seca na pele queimada. Quero ser onda e percorrer o teu corpo quente e deixar parte de mim em ti, a essência que farás arder e extinguir indiferente.

sábado, junho 14, 2008


Gangrena

Dilaceram-se as memórias
Que se espalham sobre a alma
E ardem na ferida aberta,
Infectada de sentimentos e emoções.

Dói de mim uma parte do todo
Que vi fugir pela ponta dos dedos,
Suave como uma lágrima
Que gritava na ânsia de morrer.

E eu, que já morri tantas vezes,
Vejo escurecer a fantasia dos sonhos
Criados numa noite de faz de conta
À espera de ser lembrada…

segunda-feira, junho 09, 2008

Quero acordar da fantasia
Não mais ouvir vozes sinistras
Apenas o som do vento e do mar
Ser este corpo a espuma salgada
E a pele com cheiro a maresia

Colho os seixos da inocência
Que guardei em memórias vãs
Com as cores e as linhas do tempo
Das pegadas no areal
Que as ondas irão limpar

Já o corpo queimado e suado
Ferve de desejos com sede de serem
Um oásis nas dunas ancoradas
De uma praia sem nome ou vida
Para vir a ser lembrada

quinta-feira, junho 05, 2008


Assombro

A acidez que me percorre as entranhas
Borbulha na carne descoberta;
Rasga-me a pele e consome o meu sangue
Para que seja escravo insano
E que divague moribundo nas ruínas.

Velas acesas – fantasmas que dançam:
Riem e trocem e murmuram
Praguejam o desdém dos vivos.

A noite escasseia os sentidos
De quem deambula pelas lápides:
Uma tumba aberta contendo o nada
E o medo de quem a espera;
As sombras que se movem.

Uiva o vento – a Lua está cheia!
Dois olhos que surgem na escuridão,
Um esgar de malícia esfomeada…

AMV: I am Sailor Moon (Healing Vision)

Dar mais um pouco
Lutar mais um pouco
Sofrer o necessário
Sangrar a efemeridade
E a tentação de ser louco
Nas amarras da cidade

Um sonho preso
Na memória do tempo
Respira o vento
Deixa-te morrer
Renasce e vive outra vez
Sobrevive às intempéries
Faz de ti orgulho
Não dos outros
Mas de ti

terça-feira, junho 03, 2008


Nasci nos ventos da primavera, com os aromas do alecrim e do jasmim. Respiro e tacteio a essência dos ensinamentos de mercúrio. Sou filho da Lua, que meus sonhos guarda e aconchega, e do Mar, que me dá a força e a energia para sonhar. Os astros fizeram de mim um ser mutável, que oscila entre o bem e o mal, na sua forma bruta. Contudo, nunca deixei de ser mortal. Provei o sal dos meus olhos, beijados pela noite.

Sopro uma vela acesa e deixo que o meu desejo seja levado pelo fumo. Completei vinte e um anos de existência e memórias. Parece tanto, mas ao mesmo tempo tão pouco.
E quando penso em tudo o que foi, nos caminhos que segui, percepciono que todos aqueles espinhos e as marcas que me deixaram fizeram-me crescer mais um pouco.


O passado, o presente e o futuro.
A memória, a vida e o sonho.

Gosto de sonhar. Gosto de sorrir.
Gosto dos meus amigos. Gosto de amar.
Gosto de viver.

quarta-feira, maio 21, 2008


Crono

Os dias passavam como areia entre os dedos. Era a percepção que tinha sempre que consultava a lista das tarefas agendadas diariamente, apertadas nas pequenas linhas marcadas entre as horas. O tempo parecia nunca chegar. Via-se preso a um relógio viciado, que controlava frequentemente, tão louco e mecanizado quanto ele, viajantes das rotinas impostas pela sociedade e por si próprio, pelas suas escolhas.
Albergava-o uma cidade sombria e irrequieta, com seus gigantes e parasitas, num ruído constante e fumos negros e pensamentos obscuros ou emoções descontroladas, um cocktail que cria e assume a geração do victan, ou semelhantes, fervendo a droga legal no corpo e na mente, uma oferta ao estatuto distinto dos que se escondem nos vultos de uma noite pouco sóbria.
Sentia-se cansado e enjoado de tanto movimento e das corridas constantes de rua em rua, sempre nos mesmos caminhos. Bastava-lhe seguir as pegadas marcadas dos outros dias. Tomava-se como num parque de diversões macabras, em carrosséis contínuos de movimento meramente circular. Depois eram as caras, sempre iguais, máscaras que deambulavam entre si, de expressão medonha e olhar tenebroso, rindo de si e da sua condição, vazias, sem alma.
Restavam-lhe as noites de lua, em que esta se erguia no seu estado pleno por trás da serra, ostentando haver mundo para lá dos limites do conhecido. O primeiro impacto era fantasmagórico, pois as nuvens ocultavam parte do seu brilho. Não tinha medo. Era um ser nocturno, cujas ideias fluíam com os astros infinitos. Queria dormir, tinha sono, mas não se podia entregar às necessidades do corpo, sem antes satisfazer as vontades da mente. Eram escolhas, e as suas residiam na vontade de ser maior.

segunda-feira, maio 19, 2008

CLAMP In Wonderland 2 - High Quality

A cute yet short music video featuring characters from CLAMP from 1995-2006. This time, the two Mokonas are going to have a journey, meeting new friends and trouble! On the way, one of the Mokonas will be meeting some old companions.

This video features more than 50 characters. Could you name them all?

Song: Action!
Artist: Maaya Sakamoto

[Em breve farei uma pequena biografia das CLAMP, para mostrar o trabalho deste grupo de desenhadoras de mangás]

quinta-feira, maio 15, 2008


Insónias Agendadas

Estou cansado. A tinta que mancha as paginas da minha agenda sufoca-me. São dias que se preenchem em poucos minutos, roubando-me às poucas horas de sono o conforto da cama.
A mente adormece e a carne vacila de desejo e vontades enfraquecidas pela sonolência do espírito. Enoja-me esta gosma social que se prende à consciência e cria bolor. É o vómito embriagado que fervilha no pavimento de mármore, limpo por uma esfregona suja e velha como a senhora gorda que a segura e pragueja. E eu que só queria um lençol de linho, sem manchas de sangue industrializado.
Tenho fome, fome de comida, de sexo e cama. É o resultado de viver numa cidade grande e de ruas pequenas e sujas. Lá no campo tinha as ovelhas, e uma boa ovelha mata as três fomes, já dizia o sr. Zé dos queijos. Ao menos cá não me chateiam as moscas, as melgas ocupam-se disso.

sexta-feira, maio 09, 2008


I - Gosto de...
Gosto destes dias tranquilos em que desperto na cidade de Lisboa e a vejo acordar com olhos de sono. Na sombra ainda vejo os restos de uma noite de pronuncio do que será mais tarde. O Sol ilumina as ruas vazias ou ainda pouco povoadas, enquanto os jornais são arrumados nos quiosques, fermentando os escândalos e as tragédias do dia. E quem sou eu, que me faço errar pela calçada, numa passa para saciar o estúpido vicio a que me condeno? Ninguém. Restrinjo-me à minha presença nula e aos pensamentos escondidos, rebuscando memórias com as quais tento aprender. Olho em volta e deixo que o espaço me absorva na condição de ser humano.
Mais homens e mulheres e crianças fazem sentir a sua presença de gratuito em punho, com hábitos alinhados ao papel social. Alguns alheiam-se com música que mais ninguém ouve, ou apenas o ruído. E eu que me sinto turista, hoje que os vejo de fora, admiro e observo estas formigas. Também eu sou uma delas, mas por enquanto ainda estou distanciado pela pouca necessidade de correr, deliciando-me com o canto profundo da cigarra.

quarta-feira, maio 07, 2008


Nas brumas do Tejo

Trago-me escondido nas brumas do Tejo
Assombrando nas luzes de uma cidade
Que dorme esquecida na saudade
Do que um dia foi, num momento distante.

Sobre mim – as estrelas que nos guiaram
Por tantos mares perdidos na história
E que agora se apagam na memória
Do que um dia foi e não voltará a ser.

Vejo no céu a vergonha de Vénus
Pela miséria de um povo mirrante,
Enquanto Baco ri triunfante
Das amarguras de um vinho mal bebido.

quinta-feira, maio 01, 2008



Aquele Mundo

Hoje sentia-se revoltado. Não sabia porque é que existiam elementos na sociedade em que se inseria com comportamentos que ainda o chocavam, apesar de essa estupefacção durar por apenas breves momentos. Apesar de não poder afirmar que já lhe tinham passado pelo corpo e mente vários anos de experiência, porque ainda era jovem e verde, o conhecimento básico tornava determinadas situações previsíveis, que não mudavam com a frequência necessária para uma evolução aceitável. Um país de costumes e (pré)conceitos, onde a crescente alfabetização não tinha sido suficiente para ensinar as pessoas a pensar, a agirem como animais racionais que dizem ser. E tudo isto fazia-o sentir-se numa aldeia de macacos (peço desculpa aos macacos, pois muitos são dotados de alguma inteligência, visto que, alguns, quando ensinados com empenho e dedicação, até a separar o lixo aprendem): cheira-se o cu do outro, organização em grupos para melhor ataque ou defesa, funciona-se pela recompensa, cata-se os suculentos piolhos alheios, vive-se segundo a lei do mais forte.
O dia havia sido longo, embebido em cansaço, fome e um pouco de stress para saciar a ansiedade constante. Tudo o resto, assim pensava, seriam as necessidades orgânicas, um pouco de estudo e lazer até o sono chegar. Já na paragem do seu último transporte, os seus olhos caíram sobre um homem, de raça negra, que se encontrava estendido no chão, de barriga para cima e olhos fechados. A paragem – pelo menos oito pessoas, imóveis, que olhavam para a estrada ou consultavam o relógio. “Alguém deve ter chamado uma ambulância”, pensou. Silêncio. Um indivíduo aproxima-se do corpo imóvel, verifica se tem pulsação, afastando-se segundos depois para fumar o seu cachimbo tranquilamente. Foi nesse instante que se apercebeu da insensibilidade dos que o rodeavam. O homem estava ali, aos olhos de todos, mas ignorado na sua condição. Não estava morto, e só assim se atrai a atenção dos abutres. Ligou de imediato para a linha de emergência. Parece que mais alguém tinha feito uma chamada para lá. Via-os chegar agora, os outros, que não sendo cinzentos, tinham feito algo para ajudar a vítima. De resto, troca de palavras num discurso de ocasião, criando uma atmosfera pesada entre os outros, aqueles que ignoraram a situação, e que agora sentiam o desconforto de não conseguir desviar a atenção.
A insensibilidade e a indiferença pelos outros sempre foi um comportamento corrente na nossa sociedade, exceptuando quando se tratam de mexericos ou tragédias. Neste caso em particular, aliado à questão racial, também a ideia preestabelecida de que o indivíduo em questão estaria alcoolizado. Mas ainda que fosse o caso, não é admissível que cheguemos, “cheire-mos” o corpo, e continuemos o nosso percurso como se nada fosse. Esta tendência também é muito comum quando se tratam de casos de violência doméstica, em que os vizinhos ouvem todos os dias os gritos, o barulho de uma discussão e de uma mulher a ser agredida (ou criança, ou homem, ou pessoa idosa), e no entanto não agem, não chamam a polícia, não vão tentar socorrer a vítima. Aparecem depois nas câmaras televisivas, após o silêncio eterno, prestando declarações conhecedoras da agressão constante. E depois há sempre aquela desculpa que evoca o ditado popular “entre marido e mulher não se mete a colher”, ou aqueles que ainda têm a ousadia de afirmar que “se levava era porque, se calhar, merecia”.
Este era o seu mundo, a realidade embrutecida pela pouca capacidade humanística da sociedade. O mundo das telenovelas, das personalidades que expõem as suas vidas em capas de revistas, que irão depois entreter o povinho sedento pela vidinha daqueles que idolatram, para assim poderem sonhar ou comentar a tragédia, com uma estranha sensação de felicidade por constatar que há alguém ainda mais miserável. O mundo das vizinhas à janela, atentas aos passos de uma rotina que não a sua. O mundo dos jogadores de futebol que movem multidões que fazem deles deuses, agredindo e sacrificando-se por eles. O mundo de tantos outros sem nome que se perdem em vontades que não as suas ou que não irão concretizar. Sentia uma estranha necessidade de partir, partir para longe. Abandonar este lodo. Contudo, se o fizesse, seria menos um, seria tudo igual. Ainda que a situação pareça desesperante, um pode fazer toda a diferença, num dia, em algum lugar.

domingo, abril 27, 2008


Loucura do tempo

O tempo flúi
Em mim que espero
Que aguardo em silêncio

Olho os ponteiros
Troçam de mim
Riem e bocejam

O tempo flúi
Não para ti
Que não o sentes

Eu sinto
Penso que sinto
Inconstante movimento
Ardor ou desespero

Enlouqueci?
Chega!
Dói-me a cabeça…

Tenho sede
Tanta que posso matar
Não posso – sou cobarde

Esquece-me no tempo
Num sorriso apagado
Aquele que morreu

Enquanto o tempo flúi…

domingo, abril 20, 2008

A Flor Maìs Grande do Mundo (José Saramago)

“E se as histórias para crianças fossem
De leitura obrigatória para os adultos?

Seríamos realmente capazes de aprender
Aquilo que há tanto tempo ensinamos?”

José Saramago


Se, como as crianças, tivéssemos aquela sensibilidade ingénua de não complicar as palavras que dizemos, talvez vivêssemos com mais entusiasmo, aprendendo a olhar para o Mundo que sempre ali esteve, ignorado pelos nossos olhos cinzentos.

quinta-feira, abril 17, 2008


Amnésia

Porque te espero distante de mim,
Água que flúis efémera
Insana no meu pensamento?
Dar-me-ás o começo ou o fim?
O Inverno ou a Primavera?
Debilidade ou alento?

És o veneno que me adoça os lábios
Tomando conta deste corpo
Que percorres maliciosamente
Com teus encantos vários,
Os quais em loucura sorvo
Num prazer de carne ardente!

A eloquência é para os pensadores
E o amor nunca foi racional.
Tomas-me do peito o coração,
Exaltas e afagas as dores
Dizendo não ser intencional
Enquanto o seguras na mão.

Este farrapo que abandonas,
Amnésico da sua essência,
Ainda sente o decorrer do tempo,
Deixando-se engolir pelas ondas;
Ser ausente na existência
De um sonho perdido no vento.

quarta-feira, abril 16, 2008


O Dragão e a Lebre

V

Durante a viagem até à fronteira da Floresta Proibida mantiveram-se em silêncio. As palavras proferidas pelo sábio Mocho inundavam-lhes os pensamentos, criando dúvidas que erguiam entraves à sua aproximação. O Dragão temia pela segurança da Lebre. Também a confiança que esta depositara nele poderia vir a desvanecer-se. Provavelmente não voltaria a olhá-lo da mesma forma, deixando-se consumir pelo seu próprio medo primitivo, aquele instinto de sobrevivência tão comum nas da sua espécie. Notara a exitação sentida ao subir para o seu dorso, o que mostrava um certo enfraquecimento nos laços estabelecidos e na cumplicidade existente entre ambos. A Lebre olhava para as nuvens que escondiam o cume de uma montanha distante, debatendo-se perante a tensão de um segredo por descobrir. A sua natural curiosidade comprometia a sua própria vontade. Os avisos do Mocho tinham a sua razão de ser, mas não conseguia consentir que o medo e a cobardia vencessem, não desta vez. Era-lhes ocultada a verdade e sentia-se no direito de desvendar este mistério. Poderia arriscar voltar à clareira da Grande Árvore durante a noite, mas teria de aguardar pela próxima Lua cheia, só assim se sentiria minimamente segura. Mas não podia esperar tanto tempo. Constatou que se aproximavam da fronteira. Tinha de falar com o Dragão. Também ele era a chave de tudo.
O Dragão deixou que a Lebre descesse do seu dorso. Provavelmente será a despedida, pensava para consigo mesmo. E quando se dirigia à Lebre:
- Temos de nos encontrar esta noite. – disse a Lebre num tom decidido. – É imperativo tentar entender as palavras do Mocho e descobrir a verdade.
Estupefacto pela reacção da Lebre, o Dragão apenas acenou afirmativamente, sugerindo que se encontrassem no Vale das Estrelas.
Despediram-se e seguiram os seus caminhos de regresso, ansiando o reencontro nocturno.

segunda-feira, abril 14, 2008

"Only Time" [Enya] - Sailor Moon SuperS (ChibiUsa and Helios)

Apenas o tempo nos entrega as respostas. Por vezes, outras perguntas que enfrentamos no silêncio de uma noite sem Lua.
Aos sonhos, fantasias de criança, abraço-me na minha eterna razão de ser. Contudo não me lembro de quem sou.
Quem sabe? "Apenas o tempo..."

domingo, abril 13, 2008


O Dragão e a Lebre

IV

Já conseguiam avistar a clareira da Floresta Proibida, onde se encontrava a Grande Árvore. O passeio chegara ao fim. Assim que o Dragão pousou no solo, baixou-se para que a Lebre pudesse descer. Silenciosamente avançaram até à Grande Árvore. As suas raízes ocupavam quase toda a clareira e o seu tronco era largo, enrugado pelo temo que já esquecera o seu nascimento. No centro, uma grande fenda. Era nela que vivia o sábio Mocho. Tanto o Dragão como a Lebre fecharam os olhos, curvando-se como se fizessem uma vénia:
- Sábio Mocho, dá-nos os teus ensinamentos ancestrais. – pediram em coro.
Da fenda dois olhos amarelos inundavam a escuridão fantasmagórica, surgindo o velho Mocho. Olhou-os em silêncio por breves instantes.
- Um dragão e uma lebre, o predador e a presa. – afirmou, soltando um pequeno riso. – Contudo deixam-se envolver na cumplicidade de sonharem da mesma forma. E sonham. Partilham o que sonham. Talvez de um próprio segredo que voz condena sem sequer saberem.
A Lebre e o Dragão olharam um para o outro confusos, voltando-se novamente para o Mocho. Com uma séria expressão, continuou o seu discurso:
- Se não temes este dragão, Lebre, deverás temer os outros, seus irmãos. O confronto terá início antes de se descobrirem. E tu, Dragão, entregas-te a um ser menor. Tornar-te-ás renegado, e a morte é um elogio para aqueles que corrompem a aliança…
- Os riscos que corro são medidos por mim. – interrompeu o Dragão.
- Certamente. Mas e os riscos submetidos à Lebre, quem os mede? – perguntou o Mocho.
- A morte é um começo para quem sonha e a Lua protege-me. – ripostou a Lebre. – Mas diz-me, que segredo se esconde na nossa existência e que partilhamos como os sonhos?
- Lebre atrevida! – advertiu o Mocho. – Não deverias querer saber tanto, nem mesmo fiar-te em deuses ancestrais. O segredo ser-vos-á revelado por vós próprios. O tempo corre, as areias continuam a mover-se e cada grão deverá manter o seu ritmo, ou o mundo perderia a sua estabilidade. Ainda que partilhem sonhos, não deverão esquecer os vossos primórdios princípios. Tu Dragão, abençoado pelo Sol. O fogo consome a tua existência. Não deixes que te consuma a alma. Lebre, abençoada pela lua. As trevas envolvem-te e os sonhos enchem-te de paz. Não te percas nas sombras. Sigam os vossos desejos, pois chegaram tão determinados que as minhas palavras perdem-se na pouca vontade de serem ouvidas.
Dito isto, voltou para dentro da fenda, deixando a Lebre e o Dragão serem envolvidos pelo silêncio. Olharam um para o outro. O Dragão baixou-se para que a lebre pudesse subir novamente para o seu dorso. Esta exitou, mas subiu. Em breve iria anoitecer. Tinham de regressar. Abandonaram a clareira, carregados de dúvidas, deixando para trás a Grande Árvore.
Momentos depois o Mocho voltou a sair da fenda olhando para baixo:
- Em breve irão descobrir a verdade. É uma questão de tempo. Se não mostrares dignidade, serei eu a revelar a sua cegueira, aquela criada por ti.
- Mas que atrevimento, sábio mocho! – ripostou uma voz vinda das sombras. – Esqueces-te de quem sou e daquilo que posso fazer?
- O medo que crias nos outros não surte o mesmo efeito em mim. A idade ensinou-me que este apenas nos consome. Respeito-te, mas não permitirei que quebres sonhos em nome do destino. Deixa-os criar o seu próprio.
Um riso inundou a clareira e da sombra apenas se conseguiam visualizar dois olhos verdes como duas grandes esmeraldas.
- Toma cuidado, sábio Mocho. Não me faças prescindir da tua existência.
E, com uma gargalhada sonora, desapareceu na escuridão da negra Floresta Proibida.
- Que não percam os vossos sonhos. – desejou o mocho, voltando para a solidão da sua fenda.

sábado, abril 12, 2008


O Dragão e a Lebre

III

Os raios de Sol começaram a surgir por entre as nuvens que se iam extinguindo pouco a pouco, aquecendo e iluminando a terra molhada. O Dragão levantou as suas asas para que a lebre sentisse a mudança do tempo. E, pela primeira vez, esta pôde vê-lo à luz do dia, iluminado pelo Sol. As grossas escamas que o preenchiam, desde o crânio até ao fim da cauda, ainda molhadas, misturavam todas as cores de um arco-íris, dançando entre si. Já o ventre, despido e vulnerável, apresentava uma cor suave como pérola, assim como as suas grandes asas de morcego. O pequeno coração da Lebre palpitava velozmente ao admirar a beleza do imenso Dragão e, se a sua pele não estivesse coberta pelo suave pelo, branco como a neve, tê-la-íamos visto corar. Os seus olhos cinza cruzaram-se com os azuis do Dragão e, atrapalhada, desviou o olhar. Gerou-se um breve silêncio que os comprometia. Também o Dragão a olhava enternecido.
- Que fazias por aqui? – questionou a Lebre para aliviar a estranha tenção que os envolvia.
- Dirigia-me para a Grande Árvore, a fim de escutar os sábios ensinamentos do velho Mocho. – esclareceu o Dragão. – Enquanto sobrevoava o vale, ao longo da fronteira da Floresta Proibida, vi-te e apercebi-me do perigo que corrias.
- Obrigado. – agradeceu a lebre evitando os olhos do Dragão. – Não sei como te poderei compensar por me teres salvo.
- Gostarias de me acompanhar até à Grande Árvore? – propôs. A Lebre corou novamente e acenou afirmativamente:
- Sim.
- Sobe então para o meu dorso. A Grande Árvore encontra-se no centro da Floresta Proibida. Seria perigoso atravessares a floresta. Assim sobrevoamo-la juntos.
- Tens a certeza?
- Sim. E descansa, é seguro. Não farei movimentos bruscos. – prometeu o Dragão, baixando-se para que a Lebre pudesse subir para o seu dorso. Timidamente, a Lebre subiu, sentindo o calor confortável que este emitia. O Dragão bateu as suas grandes asas, elevando-se para o céu. Com o impacto, a Lebre soltou um pequeno gemido e fechou os olhos com força:
- Não tenhas medo. Abre os olhos e olha à tua volta. – sugeriu o Dragão para a tranquilizar. Ao abrir os olhos ficou admirada com o que observava. Todo o vale, a floresta e o rio iluminados pelo Sol, como que pousassem para uma tela pintada com tons vivos de aguarelas simples e variadas. As flores silvestres envolviam o verde, tocadas por uma suave brisa que as fazia balançar suavemente. O olhar da Lebre perdia-se em tanta diversidade e no esvoaçar ingénuo das borboletas. Ao longe, o rio, parecia coberto de pequenos cristais reluzentes. Sugerindo um pequeno desvio, o Dragão dirigiu-se para o rio, num voou suave e rente ás suas águas límpidas.
Alguém os observava na margem do rio, escondido na sombra de um salgueiro-chorão. Olhava atento para o Dragão e a Lebre e para os seus reflexos nas águas do rio. Não viam eles a verdade reflectida pelos seus olhos verde-esmeralda. Apenas sorriam, cúmplices do seu próprio destino.