sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Olho a imagem oferecida pelo espelho, mas nela não encontro mais que uma sombra daquilo que sou, apenas uma sombra disforme que nem a mim agrada. Fecho os olhos, de punhos serrados, na tentativa de não cair no erro de me condenar a sete anos de má sorte. Mas porquê? Que adianta. Sou muito mais que isso, ou pelo menos julgo ser.
Já não me encontro e o quarto está escuro. Tacteio o vazio numa estranha vontade de encontrar o que não existe. Se existe eu não vejo. Estarei cego? Estarei senil? Talvez. Há momentos em que procuro o que poderia completar. Não procuro em mim, procuro no outro. Mas não existe nenhum outro se não eu, e isso não me chega, assim penso. Provavelmente não penso sequer, mas isso é outra questão que, sinceramente, não me interessa abordar, porque a noite já é suficientemente entediante e solitária para me deixar cair, a mim e a quem tais insanas palavras lê, num rasgo de bocejos e lágrimas adormecidas.
Não vejo, não saboreio, não sinto. E mais não digo. Talvez seja a dita castidade promíscua. Posso ver, saborear e sentir a carne, de tal não me privaram as más línguas, mas a carne é seca. E o sumo? Aquela vontade, aquela cumplicidade numa troca de olhares eróticos, aquele desejo de ser um todo, o toque que provoca arrepios escaldantes, ardendo todo o corpo e a alma num momento de infinito prazer.
Sei que não me devo deixar consumir pelo medo de me perder. Jamais poderei permitir que tal aconteça. Por isso refugio-me na espuma da rebentação das ondas, iluminadas pela Lua cheia, cheia de magia, cheia de sonhos, cheia de mim.

sábado, fevereiro 23, 2008

São Pobres, Senhor

Pobres daqueles que vivem no silêncio
E que se entregam à dormência do pensamento
Com medo de represálias alheias
À fuga de um padrão que dizem ser normal.

Mas estes lábios não se serrarão
Em silêncios ou brandas securas,
Porque maior que o erro de falar sem receio
É viver na penumbra do Mundo;

E não me venham com aquela imagem
De simpatia cínica e cordial,
Porque de putas de sorriso de punhal
Estou eu agoniado até às tripas!

Há mais penúria de inteligência
Que de dinheiro ganancioso;
Esta não acalma a fome física
E a outra, coitada, é esquelética.

Mas não percamos a grande fé!
Oremos ao Senhor (seja ele quem for)
Que dar-nos-á alento para sobreviver
Já que viver parece muito.

Somos pobres, pobrezinhos escanzelados,
Pequeninos e de voz medrosa,
Provincianos de cidades sujas,
Nunca tão sujas como o nosso carácter.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008


O Renascer da Lua Nova

Ouvem-se os sussurros da noite
Num pronuncio de morte
Ditado pelos astros longínquos
Onde serei o réu da Lua nova.

Cai sobre mim o negro véu
Para que não ouse olhar o passado;
A boca é cozida de linho
Para que não ouse cantar o passado;
O corpo é gelado no silêncio
Para que não sinta ou escute o passado;

E ele ajoelha-se perante os deuses
Elevando-se o espírito rebelde,
De pele branca e brilhante,
Com asas de demónio errante.

Abraça a carne do criador
Chorando o seu amargo sangue,
Pois também ele asfixia de dor
Ardente no frenético coração
E o desejo da própria extinção
Partilha no insano sofrimento.

Espírito e carne unidos
Perante a vontade maior
Aguardarão que os não-vivos
Lhes tragam sorte melhor…

Abre agora os braços ao mar,
Sente o seu abraço e a brisa suave:
A força renovada da alma
Envolta na espuma branca
Das marés que os teus olhos brotaram
Enxugadas pela gloriosa Lua.

Que novos sonhos se criem
Ou renasçam das intempéries
Como a ave sagrada se elevou
Das mais negras cinzas.

Aquece agora o corpo cansado
Para que volte a sentir no futuro;
Beija-lhe os lábios secos
Para que volte a cantar no futuro;
Dá-lhe a luz da Lua nova
Para que veja a o brilho futuro.

Amanhã terás esquecido
O renascer do passado de hoje;
E que o espírito aguarde
Os sinais do Mar e da Lua…

terça-feira, fevereiro 05, 2008

You are my love - Sakura's song - Tsubasa Chronicle

title : You are my love
sing by Sakura ~ Yui Makino version

song lyrics english version:

Kiss me sweet
i'm sleeping in silence
all alone
in ice and snow

in my dream
im calling your name
you are my love

in your eyes
I search for my memory
lost in vain
so far in the scenery
hold me tight,
and swear again and again
we'll never be apart

If you could touch my feathers softly
I'll give you my love
we set sail in the darkness of the night
out to the sea
to find me there
to find you there
love me now
if you dare...

Kiss me sweet
i'm sleeping in sorrow
all alone
to see you tomorrow

in my dream
I'm calling your name
you are my love...
my love...

song lyrics japan version:

Ame ni nureta hoho wa
namida no nioi ga shita
yasashii manazashi no
tabibito

Shizuka ni hibiiteru
natsukashii ongaku
omoidasenai kioku
samayou

Yume wa tobitatsu no chiisa na tsubasa de
omoi no kienai basho made
futari de
tooi umi wo sora wo koete

Kurai yoru no naka de
watashi wo terashiteru
yasashii manazashi no
anata ni
aitai...

Marcha Carnavalesca

É Carnaval. Tempo de loucos. Desfilam nas ruas putrefactas, com mil e uma caras que escondem a verdade, como sempre, mas com desculpa festiva.
Chovem serpentinas e confetis, lançados por um palhaço aparentemente feliz. Esconde a tristeza nas suas pinturas exageradamente extravagantes. E dança e gesticula expressões cómicas, soprando uma trompete de plástico colorida, já que a vida lhe roubou a voz e só assim se faz ouvir. Pobre palhaço. Tenta dar o que lhe roubaram, aquele sorriso genuíno ou uma gargalhada sincera.
Desaparece pelas saias saloias das varinas mas vestidas e assombrosas. Fedem a perfume barato e não é peixe o que vendem. Ou talvez seja, segundo dizem as más-línguas. Vêm de braço dado com anjos perversos e diabos de sorriso malicioso. É noite de festa. Depois de resto é o costume. Super heróis amedrontados, princesas sem dote, embebidas em vinho, génios da tabuada ou piratas de água doce.
As máscaras são variadas. Uns vestem-se do que podem. Outros do que queriam ser quando eram pequenos. Há aqueles que são o que sempre foram e recalcaram ao longo do ano. Por fim, os que cedem à extravagancia para que sejam vistos. São o que quiserem ser, num desfile insano e mal articulado. Dançam embriagados pela vontade obscura.
Parece que vejo todas as cores movimentando-se e misturando-se de forma berrante. Agonia-me. Sei que amanhã serão apenas uma: o preto. A cor da morte que se espalha nas ruas desertas, com o odor a álcool e vómito que fermentam nos passeios. É o presságio do fim das danças loucas, das gargalhadas insanas. E eu restrinjo-me ao olhar do silêncio.

terça-feira, janeiro 22, 2008


Procuro-te

Procuro-te na noite
O teu olhar, o teu toque
Espio o teu corpo despido
Procuro o teu calor
Mas a cama está vazia

Já não sonho com a vida
São apenas sombras
De uma causa esquecida

As sombras ganham forma
O medo cresce e o corpo estremece
Cria-se um monstro
Surge o que não quis ser
O que um dia se escondeu

Agora governa e finge
Mata mais um pouco de mim
Arranha a alma nua

Procuro-te na noite
As lágrimas cegam a razão
Já cansa procurar
Mas continuo, insano como antes
Porque a cama está vazia

sexta-feira, janeiro 18, 2008

The Little Mermaid - Ariel

My name is Ariel
And I want to be free
It is your sorrow
That has made a slave of me
Forgive me
Forgive me
But you are all I know
Forgive me for leaving

The day is breaking now
It's time to go away
I'm so afraid to leave
But more afraid to stay
Forgive me
For leavning
The sadness in your eyes
Forgive me

Let the wind and ocean water
Wash across your hands
Wash away a thousand footsteps
Wash us all away
Like sand

The sky has fallen
Now the earth is dry and torn
I know you're tired
From the violence of the storm

I love you
I love you
But you are all I know
Forgive me

Let the wind and ocean water
Wash across your hands
Wash away a thousand footsteps
Wash us all away

Let the wind and ocean water
Wash across your hands
Wash away a thousand memories
Wash us all away
Like sand

My name is Ariel

quarta-feira, janeiro 16, 2008


Dream Diary

I

Memórias Passadas

No topo de uma falésia enfrento as trevas de uma noite sem lua ou estrelas. O Mar chama-me e eu oiço os seus murmúrios trazidos pelo vento quente. Envolto numa capa branca, fito a rebentação das ondas lá em baixo. Soa mais alto, e uma luz surge, vinda das suas profundezas. O corpo enfraquece e deixa-se cair e engolir pelas águas agitadas. Abro os olhos. Espanta-me conseguir respirar. E a luz aproxima-se, envolvendo-me na inconsciência da sua origem.
Acordo no infinito sombrio, cujo solo preenche-se por uma fina camada de água. Estou só e despido do que me prende ao senso comum. Toda a solidão em que me encontro faz-me cair no desespero de existir. Abraço-me e deixo que as lágrimas façam parte do momento. Oiço passos que ecoam no meu pensamento. Sou eu. Não como sou agora, mas como fui em tempos, quando a minha alma ainda não tinha sido corrompida.
“Não chores. Não estás só!”
Aquela criança sorri para mim e estende-me a mão.
“Vem comigo. Quero mostrar-te uma coisa.”
E realmente mostrou. Imagens fizeram-se surgir, do mais longínquo inconsciente. Imagens do que já passou. De todos os momentos em que sorri e fui feliz. Cada vez mais rápido. E a criança limita-se a sorrir para mim, enquanto desvanece-se deixando-me só, mais uma vez. Ainda oiço a sua voz na minha cabeça:
“Não estás só.”
Abraço-me e deixo-me envolver pela luz que me faz despertar, para o fim do sonho.

terça-feira, janeiro 15, 2008


A Dor de um Mortal

Derivo na noite com a alma nua,
Procurando no céu as estrelas e a Lua.
Faz frio, o corpo vacila e deixa-se morrer;
Estou cansado desta busca eterna.
Sou como um mortal
Sem as asas que da luz vi nascer,
Feitas de sonhos sublimes e esperança…

Venda-me os olhos
Para que não veja a escuridão;
Esta dor que me abraça
Nas trevas dos meus medos
Faz-me insano, sem razão.

Quase que me sinto trespassado
Por mil espadas empunhadas
Pelas sombras amarguradas
De um coração devassado
Pelas mãos de quem o entreguei!

Fui presa de uma ser
A quem o amor e a carne não bastou
Para saciar a fome voraz,
Até a alma foi despida de sonhos
E amordaçada em espinhos de aço.

Chorei rios de prata,
Memórias que não preenchem o vazio;
Tempo que não te fez acreditar
No que mais sincero tinha para te dar;
Fizeste do eterno efémero;
Deixaste morrer a chama
Que iluminava o nosso caminho…

quinta-feira, janeiro 10, 2008


Paz Campestre

Cheguei. Ao fim de três longas horas de viagem, incómodas e apertadas pelo excesso de bagagem, ao som de rádios locais, alcancei o tão esperado destino. Tudo o resto ficou para trás, aquela ruidosa e monstruosa cidade e a rotina que me prendia com as suas correntes de aço, inquebráveis. Nem acredito que aqui estou, mais uma vez, sentado nesta pedra que já me conhece desde pequeno, aconchegado ao abrigo de uma figueira de quem o tempo já ninguém recorda. Parece que me aguardavam impacientes, pois estão como me recordo delas. Aqui não há buzinas, não há gritos, não há crianças a chorar. Não há correrias nem autocarros para apanhar. Tenho apenas o silêncio vivo da natureza que me envolve e abraça novamente, como sempre abraçou.
Que saudade tinha destas tardes de Agosto, tardes em que o canto da cigarra me faz reviver a nostalgia de outros tempos, tempos em que a minha própria inocência se misturava com a fantasia de que poderia aqui ficar na eternidade do tempo. Este é o meu santuário. Não conheço outro destino se não este, que me apazigua e me oferece momentos de reflexão, longe da intelectualidade que nos vicia. Nenhum outro me chama assim, sem palavras, apenas com as recordações que trago na memória. Aqui aprende-se com as sensações e com os sentidos que a natureza nos deu. Aprende-se a respirar.
Olho à minha volta. Não vejo ninguém. Apenas casas distantes, envelhecidas. Semeadas por montes e vales, aguardam serenamente por alguém que lhes conte histórias de outros mundos, de outras vidas que não as suas. Sabem que não virá ninguém. Deixaram-se ficar, com os poucos que nelas habitam, esquecidos pelos filhos que partiram, abandonando a terra que os viu nascer e que sempre lhes deu tudo aquilo que na verdade precisam. Mas, os que ficaram, não lamentam a solidão pois, na verdade, não estão sós. Têm muito mais que pessoas, algo que sempre lá esteve e que conhecem melhor que ninguém. Restringem-se a aguardar a morte, confiantes, com um sorriso na face e sem medos, porque morrer é renascer no eterno descanso que sempre aqui tiveram. Deram toda a sua vida para construir sonhos só seus, e o orgulho é infinito. São felizes. Eu, que venho de fora, de um mundo de cores cinzentas, e que penso ter tudo, por vezes não compreendo como podem ser felizes, sem bens materiais. Aí reside a grande diferença. Não é contentarem-se com pouco, mas é terem tudo o que realmente precisam, aliado à paz que o mesmo lhes oferece. Nós, fantasmas da cidade, pensamos que temos tudo, mas, na verdade falta-nos muito. Falta-nos abandonar o materialismo e encontrarmo-nos bem com aquilo que a natureza nos oferece. Nós somos infelizes, mas pensamos o contrário.
O Sol está tão quente que não há ninguém que se atreva a espreitar pelas portas de madeira e ferro já lascadas, ou pelas janelas de vidro fosco. Parece que toda a aldeia adormeceu, num sono profundo, pousando para uma enorme tela, pincelada de traços incertos por uma mão cansada e enrugada, que mistura, sem saber, todas as cores da vida que já passou.
São duas horas da tarde. Ainda me resta muito tempo até à hora de jantar e o almoço foi farto o suficiente para me deixar aconchegado durante as próximas horas. Sorriu para mim mesmo. É estranho. Toda esta calma me é familiar, mas sempre me parecera tão distante nos últimos meses em que me mantive ausente. Talvez seja por me ter deixado consumir pela sombria cidade. Mas agora não importa, posso ser eu novamente. Posso abrir de novo a mente e deixar-me seduzir pelas maravilhas que este espaço, este mundo utópico, me proporciona. Posso escutar os seus ensinamentos. Aprender a ser humano.
Uma pequena brisa aproxima-se, tocando nas flores silvestres que balançam suavemente. O meu olhar prende-se nas suas cores. Rosa, amarelo, branco, dourado, azul, verde. Perco-me em tanta diversidade. Parece que se movem com o esvoaçar ingénuo das borboletas. Sempre que pousam numa rústica flor fazem-na curvar-se, ligeiramente, voltando subir graciosamente. Depois, abrem as suas asas, salpicadas de tons castanhos, negros e brancos, exibindo-as, para as voltar a fechar, suavemente, sem pressas, mantendo a curiosidade de quem, como eu, as observa. Não têm onde ir. E tudo isto me consome e hipnotiza, levando-me a fantasiar um pouco. Por momentos, breves, mas profundos momentos, parecem-me fadas que pairam de flor em flor, procurando a mais bela, nunca tão bela quanto elas. Quase que as vejo sorrir, escondendo-se entre as pétalas, numa valsa lenta. Gostava de ser assim. Ser livre. Ser eternamente deste mundo, um mundo sem tempo ou movimentos furtivos. Não há dor no que vejo. E invejo-as, fazendo-me despertar, por tal sentimento, por equipará-las ao mundo real, ainda que ligeiramente atordoado. Nunca soube de alguma borboleta que chorasse. Limitam-se a viver, a fazer parte desta fantasia floral. Começam por não aparentar qualquer beleza quando nascem, para mais tarde se envolverem nos finos fios, que tecem lentamente, para poderem renascer. Pudesse eu, ainda lagarta, renascer como elas. Assim também eu seria livre.
Fecho os olhos e encosto-me ao enrugado tronco da grande e majestosa árvore. Sinto a fragrância do florescer da eterna paz invadir-me, provocando-me alguma sonolência. Até a respiração acalma e o coração descansa. Todo o meu corpo parece querer levitar. Sem se mover, tenta alcançar as nuvens de algodão que flutuam sobre si. Afinal já não quer ser borboleta, mas sim andorinha, para poder fugir do frio Inverno sempre que este ameaça aproximar-se. Poder viver numa eterna primavera e imortalizar os sonhos.
Volto a abrir os olhos. Continua tudo igual. Seguro num Pom-Pom Campestre e sopro-o para o céu azul. Observando os seus pequenos fragmentos seguirem a suave brisa que os guia, para que possam também renascer, tento aprender algo com eles. Inspiram-me. Tal como ele, também os sonhos, que, por vezes, julgamos terem sido destruídos, devem ser levados pelo tempo, ainda que dispersos em estilhaços, até que encontrem novas forças para renascer. Diferentes, talvez, mas com outra força, com outra vida. Na natureza, na vida, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Sábias palavras de Lavoiser, que agora recordo. É como a lenda da Fénix, que renasce das cinzas.
Decido abandonar este santuário por agora. Tenho saudade de ver o rio. Felizmente é perto e não terei de andar muito. Sigo as pegadas da memória. Conheço bem estes caminhos. Quase que os posso percorrer de olhos fechados seguindo o meu instinto. As silvas, pelas quais vou passando, estão carregadas de amoras, que protegem com os seus espinhos. Atrevo-me a roubar alguns destes frutos proibidos para que os possa degustar enquanto não alcanço o meu desejo. A vida também é como estas silvas. Temos de passar por espinhos, ultrapassá-los evitando que estes nos firam. Por vezes há um ou outro que nos é cravado, mas vale sempre a pena. O resultado é o doce fruto da concretização que, quanto mais difícil for chegar até ele, melhor irá saber. As amoras estão quentes, parecem pequenos corações. Talvez o sejam, corações que a natureza me entrega, para que não me sinta só. Este sim, é o amor genuíno, que não magoa, apenas quando chega a hora de partir. Mas não me vou preocupar com essa triste imagem por agora. Sei que ainda falta. Estou preso na eternidade, enquanto caminhar por estes trilhos escondidos, rodeado de flores e pinhais. A música é o balançar dos ramos, o cantar dos pássaros e das cigarras, os meus passos, a minha respiração e o suave batimento do coração. Esta sim é perfeita. Embala-me, fazendo o corpo esquecer as suas limitações físicas e quase flutuar até ao rio.
Já consigo ver o velho barco que se encontra na margem. Sempre o vi ali, parado, preso com a mesma corda de sempre, velha, mas robusta. Sento-me nele, fazendo-o baloiçar suavemente. Imagino como seria bom poder descer o rio nesta pequena embarcação. O rio parece coberto de cristais reluzentes, que ondulam. Vejo-me descer este rio de prata, vagarosamente, sem remos, sem leme, até onde ele me quiser levar. Não temo o meu destino. Afinal, sei que posso confiar-me, deixar-me ficar, nos seus braços. Uma suave brisa faz-se sentir. Sinto-a aproximar-se, pelo movimento das folhas das árvores que me fitam nas margens. Ao passar por mim, liberta-me de todos os fantasmas que ainda residiam na minha alma. E é como se me nascessem asas de luz, entregando-me a liberdade e a paz que sonhei em noites escuras e frias. Sinto-me mais leve que o próprio ar. Um novo “eu” renasceu. Está na altura de levantar voo. Abandono o velho barco, e sigo o meu instinto. O rio afasta-se devagar. Agora consigo visualizar todo este imenso mundo, o verde puro que se ergue para o azul, tentando tocar-lhe. Inspiro todo este etéreo mundo que se reflecte nos meus olhos. Vejo novas cores criarem-se. O céu tinge-se agora de tons laranja e rosa. Vejo-o esconder-se, descendo para trás das montanhas. Olho à minha volta. Tudo parece adormecer com ele. E, lá ao longe, vejo-me encostado à velha figueira, abraçando-me como quem abraça a vida.
Abro os olhos. Foi apenas um sonho, ou talvez algo mais. Já está a escurecer, mas não importa. Hoje bebi mais um pouco da doutrina deste mundo. Às estrelas, enquanto a Lua não se faz surgir, conto tudo o que aprendi. E elas ouvem-me, como sempre ouviram os meus desabafos. Também o ser humano devia ouvir. Mas não ouve, limita-se a praguejar as suas desgraças, culpando a má sorte, quando, na verdade, ele é o verdadeiro culpado do seu próprio fado. Levanto-me e acaricio a grande árvore. Conhece-me melhor que ninguém. Quase que a oiço respirar e sorrir para mim, ternamente. Despeço-me. Sei que, quando voltar, ela ainda ali estará, à minha espera, como sempre esteve.
Trabalho para a cadeira de Técnicas de Expressão Escrita I
Elaboração de um texto lento (de 4 páginas)

terça-feira, janeiro 01, 2008

Sailor Moon - Goodbye, My Lover

Para ti, ainda que a dor que me dás pareça eterna e a as lágrimas me ardam na alma.
Feliz 2008...

segunda-feira, dezembro 31, 2007


Sufoco

A noite consome-me a vontade de ser
E como uma maré afasta-me da margem,
Para o mais profundo e negro pensamento
Que alguma vez em mim surgiu,
Afundando-me no medo de viver.

E o corpo treme e vacila
Com o sufocante batimento do desespero,
Enlouquecendo a razão que resta em mim
Porque ousei o capricho de amar!

Rasgo a pele para que não me dê
Aos prazeres obscuros do desejo
E cravo na carne as palavras obscuras,
Para que não tas entregue;
Não quero ser igual aos outros.

Pudera eu arrancar o coração,
Consumido pelo fogo insano,
E espremer todas as vontades
Até que nada restasse deste enredo…

Peço apenas que na morte,
Se a pobreza alheia não o impedir,
Queimem este meu corpo,
Libertando a alma e suas memórias
Das correntes de toda uma vida.

terça-feira, dezembro 11, 2007


Vulgaridades

Hoje vi morrer um ser
Insignificante para uns,
Mas motivo de inspiração
Para os que vivem na emoção
De viver todos os dias
Como o primeiro do Mundo.

O Sol mostrou-se tímido,
Arrefecido pelo suave vento,
Gélido como as pessoas;
Fazia rodopiar as folhas
Despidas das árvores adormecidas
Pelo decorrer do velho tempo.

Foi nesse instante que vi,
Entre as dançantes folhas,
Uma pequena borboleta
Que ziguezagueava solitária
Numa luta persistente,
Confundindo-se em tons castanhos;

Observei-a por momentos,
Invejando a força e determinação,
A audácia de ser pequena,
De ser livre, em cores outonais!
Pudera eu um dia ser como ela,
Encanto de alma inocente…

Mas tudo o que é puro
Tem no Mundo um destino de morte.
E que má sorte a deste ser
Que tão pequeno enfrentou
A máquina criada pelo Homem
Sofrendo a tragédia esperada.

Da antiga graciosidade
Nada restou – desapareceu
Deixando o rasto sinistro
Da pureza devassada
Pela artificialidade humana,
Acontecimento já vulgar.

Ninguém a chorou ou notou;
A esta gente tudo é indiferente
Quando é pouco o sangue derramado;
Não dá conversa de escada
Nem exalta a curiosidade.
É apenas silêncio e cegueira.

sexta-feira, novembro 09, 2007


Suspiro Vegetativo

Sinto-me cansado de tanto cinzento.
É esta cor cinzenta, feita de pedra
Que me rodeia e se inclina cobre mim
Como se me quisesse derrubar.

E como se não fosse de mais,
Nesta densa praga doentia
Ouvem-se gritos, ruídos tenebrosos,
Ensurdecedores de qualquer raciocínio!

Aqui até o ar pesa e o vento suja;
A chuva queima nesta selva infernal
Onde tudo é fútil e artificial!

Somos súbditos do tempo
Numa corrida de rotina desenfreada,
Esgravatando na sanidade por dinheiro.

Insano, vagueio neste assombro
Buscando um pouco de vida
Que não tenha sido corrompida
Por este estranho e sinistro sistema;

Até o escasso verde que encontro
Me cheira a fantasmas de plástico!
Não fosse o original causar alergias,
Porque o que sobrevive parece repugnar…

Talvez um dia a nossa Mãe se zangue
E mostre que a lábia do Homem não chega
Para mudar o castigo merecido;

Os avisos já não bastam a estas almas,
De tão loucas que se tornaram;
Já nem medo sentem – são vegetais.

sexta-feira, novembro 02, 2007


Com quantas cores se pinta um sonho?

Com quantas cores se pinta um sonho?
Deixo que a minha alma se tinja,
Trespassada pela vida de um arco-íris.

Tenho sede, sede de mar, sede de amar,
De molhar os pés na água salgada
E envolver-me na espuma das ondas,
Esperando que o meu corpo se dissolva
Para fazer parte da sua imensidão.

Misturam-se as cores em tons suaves,
Tons de azul cor-de-céu-e-mar,
A areia morna do sol, o branco das ondas;
Começam a diluir-se em traços e curvas
Numa grande tela vazia.

Preciso de ar, ar de floresta densa,
Respirar e sentir esta dança,
Dança de aromas puros e virgens;
O toque suave do vento nas flores:
Cores que voam, fadas talvez…

Misturam-se as cores em tons vivos,
Cores silvestres que se diluem
Com a suavidade do mar
Numa cumplicidade intensa,
Preenchendo a grande tela sonhadora.

O sonho é de todas as cores do arco-íris
Numa mistura pura que cria o elo
Entre a alma, a fantasia e a vida:
Uma ponte, parte de mim para um todo,
Até onde eu conseguir sonhar!


Possível Fórmula da Vida

Pergunto-me numa noite sem lua,
De ventos despertos e alma nua:
Com que gestos se cria a vida
Para além da concepção já conhecida?

Há quem lhe atribua origem divina,
Outros, pela complexa ciência;
Mas o que há para lá do orgânico?

Quero ser criança novamente
E imaginar a fórmula secreta:

Dar-lhe-ia um pouco de fantasia,
Um sorriso sincero todos os dias
E algumas nuvens passageiras,
Para crescer e aprender
A ultrapassar as barreiras;
Para que nada viesse a faltar
Curiosidade para o mundo explorar;
Uma flor, um momento a desfrutar;
Amor, alguém para abraçar;
O mar, o horizonte, o respirar;
A paz, a força para o mundo mudar;
Esperança, para nunca desistir sem lutar…

Tantas coisas juntaria nesta receita,
Mas a imaginação já é pouca
E nem sempre nos ficam os traços de criança;
Sobraram hoje apenas alguns minutos…

sexta-feira, outubro 19, 2007


Já cheira a Outono nas ruas de Lisboa.
O aroma suave a castanhas assadas
Envolve-nos os sentidos gulosos;
Ainda que de aspecto tosco de carvão
(que não lhes retira o bom gosto)
Fazem as delícias de uma tradição inflacionada.

segunda-feira, outubro 08, 2007


Murmúrios

Existe sempre algo cujas palavras não chegam
Para descrever um simples momento
Cuja complexidade depende de como o olhamos,
De como o vivemos e sentimos,
Do valor que damos ao tempo.

Não tenho como traduzir a ansiedade
Que me enfraquece a razão;
É como sentir quatro paredes fecharem-se
Lenta e dolorosamente em torno do meu coração,
Impedindo-me de respirar, sufocando-me;

Sinto-me sufocar a cada segundo
De um relógio sem corda,
Mostrando-me a solidão que envolve a alma
E a sela num corpo inconsciente e pesado
Sem asas para voar…

Podia projectar um rio de água cristalina,
Uma flor repleta de cor e vida,
Uma ponte que levar-me-ia para o outro lado,
Um sonho de criança
Ou um sopro de fantasia e esperança;

Mas diante destes olhos de vidro
Vejo a lama e o lodo,
O luto da morte,
As ruínas, o medo e a insegurança;
Murmúrios perdidos numa mágoa vã…

segunda-feira, setembro 24, 2007


Agonia Mímica e Muda

Vejo nestes olhos a alma profunda
Reflectida nas sombras da noite;
Vejo-me perdido neste espelho
Num género de solidão – o vazio.

É a saudade da própria inocência,
Um espírito que pede clemência
Gritando dentro do meu peito:
Gritos mudos e mímicos…

Eis que o sonho se perde na floresta
Densa e escura – chora, foge da besta
Que reside algures na mente inconsciente
Como um anjo ridículo e mortal;

Ergue a face molhada para a lua;
Pérolas que caiem como orvalho
Nas pétalas das flores serenas…
Esconde a dor para que ninguém a veja!

É por esta fraqueza que o corpo reclama
Ou se deixa lentamente morrer,
Para que não sinta a agonia de viver
Sem a antiga força, sem aquela chama…

quarta-feira, setembro 05, 2007


O Meu Funeral


Mas que trágico para um jovem como eu, que completou apenas os seus 20 anos, pensar no momento após a sua morte. Não me julguem doido ou sinistro, apenas pus-me a pensar, enquanto o sono não vinha, como seria após o fim da minha vida. Irei então descrever como imaginei o meu funeral e o meu enterro, caso morra novo, em tempos próximos.



Quem entrar na sala poderá sentir o doce aroma do incenso oriental que estaria a arder perto do meu caixão, em dois potes cheios de areia e cinzas. Estes poderiam ser grandes e pequenos, desde que se mantivessem ao nível do caixão. Juntamente com o incenso, músicas que relembram a natureza iriam envolver todo o espaço, suavemente, transmitindo paz para quem entrasse na sala.
Não iriam encontrar a trivial sala escura, mas sim uma sala bem iluminada e arejada, decorada em tons claros. A separar a câmara de convívio daquela onde estaria o meu caixão estariam grandes cortinas brancas e leves presas com fitas azuis turquesa.
Ao aproximarem-se no meu caixão, poderiam ver-me adormecido, vestido de branco com um manto azul-marinho, descalço, segurando um ramo de lírios brancos, presos com fitas de várias cores: azul-bebé, rosa-bebé, amarelo, laranja, vermelho e cinzento, com um grande laço em fita vermelha no centro. Todo o interior do caixão estaria forrado a branco com areia e conchas perdidas no fundo e algumas pétalas de rosa.

Regras para quem quiser ir ao meu funeral:

1- Ir vestido em tons claros e simples (nada de preto ou cores escuras);

2- Não chorar desalmadamente ou evocar por mim;

3- Ir com uma fita no pulso, correspondente à ligação que tem para comigo:

Azul-bebé – pai
Rosa-bebé – mãe
Amarelo – familiar
Laranja – amigo
Vermelho – quem amei antes de morrer
Cinzento – conhecido

(nota: em alguns casos poderão levar pais que uma fita; ex: um familiar com o qual tivesse uma relação de amizade levaria uma amarela e outra laranja; um familiar com o qual eu não tivesse muita ligação levaria amarela e cinzenta, etc…)

4- Não fazer do funeral um arraial ou uma sala de tricô;

5- Não beijar, acariciar ou mexer no meu corpo morto.

Gostaria também de ser enterrado num cemitério bonito, com jardim. As regras para o enterro serão as mesmas do funeral e, no momento antes de taparem o caixão, quem quiser, não atira terra como se costuma fazer, mas pétalas de flores. Não quero que ninguém veja o caixão a ser coberto de terra, pedia que os presentes se fossem embora antes de tal acontecer.
-----
Bom, e assim termino a descrição de como gostaria que fosse o meu funeral e enterro. Tentei fazê-lo de forma simples para não se tornar um texto muito longo.
Há quem pense em muitas coisas antes de dormir, nas contas que tem para pagar, no dia que teve, no dia seguinte, no jantar, etc… Eu tenho pensado nisto, nas últimas noites. É estranho, mas não é de todo desagradável, até tem o seu lado engraçado. Pergunto o que diria um psiquiatra…