quinta-feira, julho 17, 2008

Murmúrios Silenciosos

Vendado caminho em passos hesitantes.
Erro pelas sombras da cidade submersa
onde cheiro a saudade em cada pedra
em que vou tropeçando.
Aqui não há guias nem avisos
nem um braço forte ou uma voz.
Silêncio! – já sinto o odor da morte
a rastejar na calçada ensanguentada.

Não me suspirem o triste fado,
almas condenadas,
não me segredem as desventuras
como punhais enterrados na carne.
A boca sabe-me a veneno.
Vai engrossando a saliva até que sequem os lábios.
E depois? – mais nada.
A noite, o mar revoltoso e a lua que se esconde.

sexta-feira, junho 27, 2008


Melancolia

Olho a pena adormecida no encanto
de ser eterna na sua leveza
e nas palavras manchadas de negro.
É submissa à vontade do criador;
arde na sua revolta embriagada
por desejos e sonhos adormecidos.

Gulosa, não me olhes assim!
A tinta com que te lambes inflacionou…
Bebe antes do meu sangue
que é amargo e quente como o vinho;
consome-o até que o corpo gele,
para que se liberte a alma da melancolia…

…de ser refém das amarras do tempo.

domingo, junho 15, 2008

I Need Love - Anime Mix

Arde-me a pele, arde-me a vontade, arde-me a alma e tudo o que vive na minha inexistência. Não sou mais que areia e pó da insanidade de ser gente, um ser humano, um mortal que se constrói e destrói em castelos de areia derrubados pelas vagas perdidas. E o corpo morre comigo, mais um pouco (de novo), para se desfazer na espuma das ondas e ser livre.
Não quero ser o sal que flúi e seca na pele queimada. Quero ser onda e percorrer o teu corpo quente e deixar parte de mim em ti, a essência que farás arder e extinguir indiferente.

sábado, junho 14, 2008


Gangrena

Dilaceram-se as memórias
Que se espalham sobre a alma
E ardem na ferida aberta,
Infectada de sentimentos e emoções.

Dói de mim uma parte do todo
Que vi fugir pela ponta dos dedos,
Suave como uma lágrima
Que gritava na ânsia de morrer.

E eu, que já morri tantas vezes,
Vejo escurecer a fantasia dos sonhos
Criados numa noite de faz de conta
À espera de ser lembrada…

segunda-feira, junho 09, 2008

Quero acordar da fantasia
Não mais ouvir vozes sinistras
Apenas o som do vento e do mar
Ser este corpo a espuma salgada
E a pele com cheiro a maresia

Colho os seixos da inocência
Que guardei em memórias vãs
Com as cores e as linhas do tempo
Das pegadas no areal
Que as ondas irão limpar

Já o corpo queimado e suado
Ferve de desejos com sede de serem
Um oásis nas dunas ancoradas
De uma praia sem nome ou vida
Para vir a ser lembrada

quinta-feira, junho 05, 2008


Assombro

A acidez que me percorre as entranhas
Borbulha na carne descoberta;
Rasga-me a pele e consome o meu sangue
Para que seja escravo insano
E que divague moribundo nas ruínas.

Velas acesas – fantasmas que dançam:
Riem e trocem e murmuram
Praguejam o desdém dos vivos.

A noite escasseia os sentidos
De quem deambula pelas lápides:
Uma tumba aberta contendo o nada
E o medo de quem a espera;
As sombras que se movem.

Uiva o vento – a Lua está cheia!
Dois olhos que surgem na escuridão,
Um esgar de malícia esfomeada…

AMV: I am Sailor Moon (Healing Vision)

Dar mais um pouco
Lutar mais um pouco
Sofrer o necessário
Sangrar a efemeridade
E a tentação de ser louco
Nas amarras da cidade

Um sonho preso
Na memória do tempo
Respira o vento
Deixa-te morrer
Renasce e vive outra vez
Sobrevive às intempéries
Faz de ti orgulho
Não dos outros
Mas de ti

terça-feira, junho 03, 2008


Nasci nos ventos da primavera, com os aromas do alecrim e do jasmim. Respiro e tacteio a essência dos ensinamentos de mercúrio. Sou filho da Lua, que meus sonhos guarda e aconchega, e do Mar, que me dá a força e a energia para sonhar. Os astros fizeram de mim um ser mutável, que oscila entre o bem e o mal, na sua forma bruta. Contudo, nunca deixei de ser mortal. Provei o sal dos meus olhos, beijados pela noite.

Sopro uma vela acesa e deixo que o meu desejo seja levado pelo fumo. Completei vinte e um anos de existência e memórias. Parece tanto, mas ao mesmo tempo tão pouco.
E quando penso em tudo o que foi, nos caminhos que segui, percepciono que todos aqueles espinhos e as marcas que me deixaram fizeram-me crescer mais um pouco.


O passado, o presente e o futuro.
A memória, a vida e o sonho.

Gosto de sonhar. Gosto de sorrir.
Gosto dos meus amigos. Gosto de amar.
Gosto de viver.

quarta-feira, maio 21, 2008


Crono

Os dias passavam como areia entre os dedos. Era a percepção que tinha sempre que consultava a lista das tarefas agendadas diariamente, apertadas nas pequenas linhas marcadas entre as horas. O tempo parecia nunca chegar. Via-se preso a um relógio viciado, que controlava frequentemente, tão louco e mecanizado quanto ele, viajantes das rotinas impostas pela sociedade e por si próprio, pelas suas escolhas.
Albergava-o uma cidade sombria e irrequieta, com seus gigantes e parasitas, num ruído constante e fumos negros e pensamentos obscuros ou emoções descontroladas, um cocktail que cria e assume a geração do victan, ou semelhantes, fervendo a droga legal no corpo e na mente, uma oferta ao estatuto distinto dos que se escondem nos vultos de uma noite pouco sóbria.
Sentia-se cansado e enjoado de tanto movimento e das corridas constantes de rua em rua, sempre nos mesmos caminhos. Bastava-lhe seguir as pegadas marcadas dos outros dias. Tomava-se como num parque de diversões macabras, em carrosséis contínuos de movimento meramente circular. Depois eram as caras, sempre iguais, máscaras que deambulavam entre si, de expressão medonha e olhar tenebroso, rindo de si e da sua condição, vazias, sem alma.
Restavam-lhe as noites de lua, em que esta se erguia no seu estado pleno por trás da serra, ostentando haver mundo para lá dos limites do conhecido. O primeiro impacto era fantasmagórico, pois as nuvens ocultavam parte do seu brilho. Não tinha medo. Era um ser nocturno, cujas ideias fluíam com os astros infinitos. Queria dormir, tinha sono, mas não se podia entregar às necessidades do corpo, sem antes satisfazer as vontades da mente. Eram escolhas, e as suas residiam na vontade de ser maior.

segunda-feira, maio 19, 2008

CLAMP In Wonderland 2 - High Quality

A cute yet short music video featuring characters from CLAMP from 1995-2006. This time, the two Mokonas are going to have a journey, meeting new friends and trouble! On the way, one of the Mokonas will be meeting some old companions.

This video features more than 50 characters. Could you name them all?

Song: Action!
Artist: Maaya Sakamoto

[Em breve farei uma pequena biografia das CLAMP, para mostrar o trabalho deste grupo de desenhadoras de mangás]

quinta-feira, maio 15, 2008


Insónias Agendadas

Estou cansado. A tinta que mancha as paginas da minha agenda sufoca-me. São dias que se preenchem em poucos minutos, roubando-me às poucas horas de sono o conforto da cama.
A mente adormece e a carne vacila de desejo e vontades enfraquecidas pela sonolência do espírito. Enoja-me esta gosma social que se prende à consciência e cria bolor. É o vómito embriagado que fervilha no pavimento de mármore, limpo por uma esfregona suja e velha como a senhora gorda que a segura e pragueja. E eu que só queria um lençol de linho, sem manchas de sangue industrializado.
Tenho fome, fome de comida, de sexo e cama. É o resultado de viver numa cidade grande e de ruas pequenas e sujas. Lá no campo tinha as ovelhas, e uma boa ovelha mata as três fomes, já dizia o sr. Zé dos queijos. Ao menos cá não me chateiam as moscas, as melgas ocupam-se disso.

sexta-feira, maio 09, 2008


I - Gosto de...
Gosto destes dias tranquilos em que desperto na cidade de Lisboa e a vejo acordar com olhos de sono. Na sombra ainda vejo os restos de uma noite de pronuncio do que será mais tarde. O Sol ilumina as ruas vazias ou ainda pouco povoadas, enquanto os jornais são arrumados nos quiosques, fermentando os escândalos e as tragédias do dia. E quem sou eu, que me faço errar pela calçada, numa passa para saciar o estúpido vicio a que me condeno? Ninguém. Restrinjo-me à minha presença nula e aos pensamentos escondidos, rebuscando memórias com as quais tento aprender. Olho em volta e deixo que o espaço me absorva na condição de ser humano.
Mais homens e mulheres e crianças fazem sentir a sua presença de gratuito em punho, com hábitos alinhados ao papel social. Alguns alheiam-se com música que mais ninguém ouve, ou apenas o ruído. E eu que me sinto turista, hoje que os vejo de fora, admiro e observo estas formigas. Também eu sou uma delas, mas por enquanto ainda estou distanciado pela pouca necessidade de correr, deliciando-me com o canto profundo da cigarra.

quarta-feira, maio 07, 2008


Nas brumas do Tejo

Trago-me escondido nas brumas do Tejo
Assombrando nas luzes de uma cidade
Que dorme esquecida na saudade
Do que um dia foi, num momento distante.

Sobre mim – as estrelas que nos guiaram
Por tantos mares perdidos na história
E que agora se apagam na memória
Do que um dia foi e não voltará a ser.

Vejo no céu a vergonha de Vénus
Pela miséria de um povo mirrante,
Enquanto Baco ri triunfante
Das amarguras de um vinho mal bebido.

quinta-feira, maio 01, 2008



Aquele Mundo

Hoje sentia-se revoltado. Não sabia porque é que existiam elementos na sociedade em que se inseria com comportamentos que ainda o chocavam, apesar de essa estupefacção durar por apenas breves momentos. Apesar de não poder afirmar que já lhe tinham passado pelo corpo e mente vários anos de experiência, porque ainda era jovem e verde, o conhecimento básico tornava determinadas situações previsíveis, que não mudavam com a frequência necessária para uma evolução aceitável. Um país de costumes e (pré)conceitos, onde a crescente alfabetização não tinha sido suficiente para ensinar as pessoas a pensar, a agirem como animais racionais que dizem ser. E tudo isto fazia-o sentir-se numa aldeia de macacos (peço desculpa aos macacos, pois muitos são dotados de alguma inteligência, visto que, alguns, quando ensinados com empenho e dedicação, até a separar o lixo aprendem): cheira-se o cu do outro, organização em grupos para melhor ataque ou defesa, funciona-se pela recompensa, cata-se os suculentos piolhos alheios, vive-se segundo a lei do mais forte.
O dia havia sido longo, embebido em cansaço, fome e um pouco de stress para saciar a ansiedade constante. Tudo o resto, assim pensava, seriam as necessidades orgânicas, um pouco de estudo e lazer até o sono chegar. Já na paragem do seu último transporte, os seus olhos caíram sobre um homem, de raça negra, que se encontrava estendido no chão, de barriga para cima e olhos fechados. A paragem – pelo menos oito pessoas, imóveis, que olhavam para a estrada ou consultavam o relógio. “Alguém deve ter chamado uma ambulância”, pensou. Silêncio. Um indivíduo aproxima-se do corpo imóvel, verifica se tem pulsação, afastando-se segundos depois para fumar o seu cachimbo tranquilamente. Foi nesse instante que se apercebeu da insensibilidade dos que o rodeavam. O homem estava ali, aos olhos de todos, mas ignorado na sua condição. Não estava morto, e só assim se atrai a atenção dos abutres. Ligou de imediato para a linha de emergência. Parece que mais alguém tinha feito uma chamada para lá. Via-os chegar agora, os outros, que não sendo cinzentos, tinham feito algo para ajudar a vítima. De resto, troca de palavras num discurso de ocasião, criando uma atmosfera pesada entre os outros, aqueles que ignoraram a situação, e que agora sentiam o desconforto de não conseguir desviar a atenção.
A insensibilidade e a indiferença pelos outros sempre foi um comportamento corrente na nossa sociedade, exceptuando quando se tratam de mexericos ou tragédias. Neste caso em particular, aliado à questão racial, também a ideia preestabelecida de que o indivíduo em questão estaria alcoolizado. Mas ainda que fosse o caso, não é admissível que cheguemos, “cheire-mos” o corpo, e continuemos o nosso percurso como se nada fosse. Esta tendência também é muito comum quando se tratam de casos de violência doméstica, em que os vizinhos ouvem todos os dias os gritos, o barulho de uma discussão e de uma mulher a ser agredida (ou criança, ou homem, ou pessoa idosa), e no entanto não agem, não chamam a polícia, não vão tentar socorrer a vítima. Aparecem depois nas câmaras televisivas, após o silêncio eterno, prestando declarações conhecedoras da agressão constante. E depois há sempre aquela desculpa que evoca o ditado popular “entre marido e mulher não se mete a colher”, ou aqueles que ainda têm a ousadia de afirmar que “se levava era porque, se calhar, merecia”.
Este era o seu mundo, a realidade embrutecida pela pouca capacidade humanística da sociedade. O mundo das telenovelas, das personalidades que expõem as suas vidas em capas de revistas, que irão depois entreter o povinho sedento pela vidinha daqueles que idolatram, para assim poderem sonhar ou comentar a tragédia, com uma estranha sensação de felicidade por constatar que há alguém ainda mais miserável. O mundo das vizinhas à janela, atentas aos passos de uma rotina que não a sua. O mundo dos jogadores de futebol que movem multidões que fazem deles deuses, agredindo e sacrificando-se por eles. O mundo de tantos outros sem nome que se perdem em vontades que não as suas ou que não irão concretizar. Sentia uma estranha necessidade de partir, partir para longe. Abandonar este lodo. Contudo, se o fizesse, seria menos um, seria tudo igual. Ainda que a situação pareça desesperante, um pode fazer toda a diferença, num dia, em algum lugar.

domingo, abril 27, 2008


Loucura do tempo

O tempo flúi
Em mim que espero
Que aguardo em silêncio

Olho os ponteiros
Troçam de mim
Riem e bocejam

O tempo flúi
Não para ti
Que não o sentes

Eu sinto
Penso que sinto
Inconstante movimento
Ardor ou desespero

Enlouqueci?
Chega!
Dói-me a cabeça…

Tenho sede
Tanta que posso matar
Não posso – sou cobarde

Esquece-me no tempo
Num sorriso apagado
Aquele que morreu

Enquanto o tempo flúi…

domingo, abril 20, 2008

A Flor Maìs Grande do Mundo (José Saramago)

“E se as histórias para crianças fossem
De leitura obrigatória para os adultos?

Seríamos realmente capazes de aprender
Aquilo que há tanto tempo ensinamos?”

José Saramago


Se, como as crianças, tivéssemos aquela sensibilidade ingénua de não complicar as palavras que dizemos, talvez vivêssemos com mais entusiasmo, aprendendo a olhar para o Mundo que sempre ali esteve, ignorado pelos nossos olhos cinzentos.

quinta-feira, abril 17, 2008


Amnésia

Porque te espero distante de mim,
Água que flúis efémera
Insana no meu pensamento?
Dar-me-ás o começo ou o fim?
O Inverno ou a Primavera?
Debilidade ou alento?

És o veneno que me adoça os lábios
Tomando conta deste corpo
Que percorres maliciosamente
Com teus encantos vários,
Os quais em loucura sorvo
Num prazer de carne ardente!

A eloquência é para os pensadores
E o amor nunca foi racional.
Tomas-me do peito o coração,
Exaltas e afagas as dores
Dizendo não ser intencional
Enquanto o seguras na mão.

Este farrapo que abandonas,
Amnésico da sua essência,
Ainda sente o decorrer do tempo,
Deixando-se engolir pelas ondas;
Ser ausente na existência
De um sonho perdido no vento.

quarta-feira, abril 16, 2008


O Dragão e a Lebre

V

Durante a viagem até à fronteira da Floresta Proibida mantiveram-se em silêncio. As palavras proferidas pelo sábio Mocho inundavam-lhes os pensamentos, criando dúvidas que erguiam entraves à sua aproximação. O Dragão temia pela segurança da Lebre. Também a confiança que esta depositara nele poderia vir a desvanecer-se. Provavelmente não voltaria a olhá-lo da mesma forma, deixando-se consumir pelo seu próprio medo primitivo, aquele instinto de sobrevivência tão comum nas da sua espécie. Notara a exitação sentida ao subir para o seu dorso, o que mostrava um certo enfraquecimento nos laços estabelecidos e na cumplicidade existente entre ambos. A Lebre olhava para as nuvens que escondiam o cume de uma montanha distante, debatendo-se perante a tensão de um segredo por descobrir. A sua natural curiosidade comprometia a sua própria vontade. Os avisos do Mocho tinham a sua razão de ser, mas não conseguia consentir que o medo e a cobardia vencessem, não desta vez. Era-lhes ocultada a verdade e sentia-se no direito de desvendar este mistério. Poderia arriscar voltar à clareira da Grande Árvore durante a noite, mas teria de aguardar pela próxima Lua cheia, só assim se sentiria minimamente segura. Mas não podia esperar tanto tempo. Constatou que se aproximavam da fronteira. Tinha de falar com o Dragão. Também ele era a chave de tudo.
O Dragão deixou que a Lebre descesse do seu dorso. Provavelmente será a despedida, pensava para consigo mesmo. E quando se dirigia à Lebre:
- Temos de nos encontrar esta noite. – disse a Lebre num tom decidido. – É imperativo tentar entender as palavras do Mocho e descobrir a verdade.
Estupefacto pela reacção da Lebre, o Dragão apenas acenou afirmativamente, sugerindo que se encontrassem no Vale das Estrelas.
Despediram-se e seguiram os seus caminhos de regresso, ansiando o reencontro nocturno.

segunda-feira, abril 14, 2008

"Only Time" [Enya] - Sailor Moon SuperS (ChibiUsa and Helios)

Apenas o tempo nos entrega as respostas. Por vezes, outras perguntas que enfrentamos no silêncio de uma noite sem Lua.
Aos sonhos, fantasias de criança, abraço-me na minha eterna razão de ser. Contudo não me lembro de quem sou.
Quem sabe? "Apenas o tempo..."

domingo, abril 13, 2008


O Dragão e a Lebre

IV

Já conseguiam avistar a clareira da Floresta Proibida, onde se encontrava a Grande Árvore. O passeio chegara ao fim. Assim que o Dragão pousou no solo, baixou-se para que a Lebre pudesse descer. Silenciosamente avançaram até à Grande Árvore. As suas raízes ocupavam quase toda a clareira e o seu tronco era largo, enrugado pelo temo que já esquecera o seu nascimento. No centro, uma grande fenda. Era nela que vivia o sábio Mocho. Tanto o Dragão como a Lebre fecharam os olhos, curvando-se como se fizessem uma vénia:
- Sábio Mocho, dá-nos os teus ensinamentos ancestrais. – pediram em coro.
Da fenda dois olhos amarelos inundavam a escuridão fantasmagórica, surgindo o velho Mocho. Olhou-os em silêncio por breves instantes.
- Um dragão e uma lebre, o predador e a presa. – afirmou, soltando um pequeno riso. – Contudo deixam-se envolver na cumplicidade de sonharem da mesma forma. E sonham. Partilham o que sonham. Talvez de um próprio segredo que voz condena sem sequer saberem.
A Lebre e o Dragão olharam um para o outro confusos, voltando-se novamente para o Mocho. Com uma séria expressão, continuou o seu discurso:
- Se não temes este dragão, Lebre, deverás temer os outros, seus irmãos. O confronto terá início antes de se descobrirem. E tu, Dragão, entregas-te a um ser menor. Tornar-te-ás renegado, e a morte é um elogio para aqueles que corrompem a aliança…
- Os riscos que corro são medidos por mim. – interrompeu o Dragão.
- Certamente. Mas e os riscos submetidos à Lebre, quem os mede? – perguntou o Mocho.
- A morte é um começo para quem sonha e a Lua protege-me. – ripostou a Lebre. – Mas diz-me, que segredo se esconde na nossa existência e que partilhamos como os sonhos?
- Lebre atrevida! – advertiu o Mocho. – Não deverias querer saber tanto, nem mesmo fiar-te em deuses ancestrais. O segredo ser-vos-á revelado por vós próprios. O tempo corre, as areias continuam a mover-se e cada grão deverá manter o seu ritmo, ou o mundo perderia a sua estabilidade. Ainda que partilhem sonhos, não deverão esquecer os vossos primórdios princípios. Tu Dragão, abençoado pelo Sol. O fogo consome a tua existência. Não deixes que te consuma a alma. Lebre, abençoada pela lua. As trevas envolvem-te e os sonhos enchem-te de paz. Não te percas nas sombras. Sigam os vossos desejos, pois chegaram tão determinados que as minhas palavras perdem-se na pouca vontade de serem ouvidas.
Dito isto, voltou para dentro da fenda, deixando a Lebre e o Dragão serem envolvidos pelo silêncio. Olharam um para o outro. O Dragão baixou-se para que a lebre pudesse subir novamente para o seu dorso. Esta exitou, mas subiu. Em breve iria anoitecer. Tinham de regressar. Abandonaram a clareira, carregados de dúvidas, deixando para trás a Grande Árvore.
Momentos depois o Mocho voltou a sair da fenda olhando para baixo:
- Em breve irão descobrir a verdade. É uma questão de tempo. Se não mostrares dignidade, serei eu a revelar a sua cegueira, aquela criada por ti.
- Mas que atrevimento, sábio mocho! – ripostou uma voz vinda das sombras. – Esqueces-te de quem sou e daquilo que posso fazer?
- O medo que crias nos outros não surte o mesmo efeito em mim. A idade ensinou-me que este apenas nos consome. Respeito-te, mas não permitirei que quebres sonhos em nome do destino. Deixa-os criar o seu próprio.
Um riso inundou a clareira e da sombra apenas se conseguiam visualizar dois olhos verdes como duas grandes esmeraldas.
- Toma cuidado, sábio Mocho. Não me faças prescindir da tua existência.
E, com uma gargalhada sonora, desapareceu na escuridão da negra Floresta Proibida.
- Que não percam os vossos sonhos. – desejou o mocho, voltando para a solidão da sua fenda.

sábado, abril 12, 2008


O Dragão e a Lebre

III

Os raios de Sol começaram a surgir por entre as nuvens que se iam extinguindo pouco a pouco, aquecendo e iluminando a terra molhada. O Dragão levantou as suas asas para que a lebre sentisse a mudança do tempo. E, pela primeira vez, esta pôde vê-lo à luz do dia, iluminado pelo Sol. As grossas escamas que o preenchiam, desde o crânio até ao fim da cauda, ainda molhadas, misturavam todas as cores de um arco-íris, dançando entre si. Já o ventre, despido e vulnerável, apresentava uma cor suave como pérola, assim como as suas grandes asas de morcego. O pequeno coração da Lebre palpitava velozmente ao admirar a beleza do imenso Dragão e, se a sua pele não estivesse coberta pelo suave pelo, branco como a neve, tê-la-íamos visto corar. Os seus olhos cinza cruzaram-se com os azuis do Dragão e, atrapalhada, desviou o olhar. Gerou-se um breve silêncio que os comprometia. Também o Dragão a olhava enternecido.
- Que fazias por aqui? – questionou a Lebre para aliviar a estranha tenção que os envolvia.
- Dirigia-me para a Grande Árvore, a fim de escutar os sábios ensinamentos do velho Mocho. – esclareceu o Dragão. – Enquanto sobrevoava o vale, ao longo da fronteira da Floresta Proibida, vi-te e apercebi-me do perigo que corrias.
- Obrigado. – agradeceu a lebre evitando os olhos do Dragão. – Não sei como te poderei compensar por me teres salvo.
- Gostarias de me acompanhar até à Grande Árvore? – propôs. A Lebre corou novamente e acenou afirmativamente:
- Sim.
- Sobe então para o meu dorso. A Grande Árvore encontra-se no centro da Floresta Proibida. Seria perigoso atravessares a floresta. Assim sobrevoamo-la juntos.
- Tens a certeza?
- Sim. E descansa, é seguro. Não farei movimentos bruscos. – prometeu o Dragão, baixando-se para que a Lebre pudesse subir para o seu dorso. Timidamente, a Lebre subiu, sentindo o calor confortável que este emitia. O Dragão bateu as suas grandes asas, elevando-se para o céu. Com o impacto, a Lebre soltou um pequeno gemido e fechou os olhos com força:
- Não tenhas medo. Abre os olhos e olha à tua volta. – sugeriu o Dragão para a tranquilizar. Ao abrir os olhos ficou admirada com o que observava. Todo o vale, a floresta e o rio iluminados pelo Sol, como que pousassem para uma tela pintada com tons vivos de aguarelas simples e variadas. As flores silvestres envolviam o verde, tocadas por uma suave brisa que as fazia balançar suavemente. O olhar da Lebre perdia-se em tanta diversidade e no esvoaçar ingénuo das borboletas. Ao longe, o rio, parecia coberto de pequenos cristais reluzentes. Sugerindo um pequeno desvio, o Dragão dirigiu-se para o rio, num voou suave e rente ás suas águas límpidas.
Alguém os observava na margem do rio, escondido na sombra de um salgueiro-chorão. Olhava atento para o Dragão e a Lebre e para os seus reflexos nas águas do rio. Não viam eles a verdade reflectida pelos seus olhos verde-esmeralda. Apenas sorriam, cúmplices do seu próprio destino.

quarta-feira, abril 09, 2008


O Dragão e a Lebre

II
Sentiu o dia aproximar-se com um pronuncio tempestuoso. Não conseguira dormir, sempre que fechava os olhos na tentativa de uma viagem pelos seus mais vastos sonhos eram os olhos do misterioso Dragão que lhe inundavam a mente e a alma. Contudo, e apesar do cansaço físico, as tarefas habituais não a deixariam manter-se pensativa por muito tempo, até porque se tinha de apressar, não fossem as condições atmosféricas agravarem-se.
Saiu da toca, como todas as manhãs, em busca de um pouco de ar e mantimentos. O vento era forte, mas não se podia dar por vencida. Sabia que iria encontrar o que precisava na fronteira da Floresta Proibida. Apesar do medo que sentia, era o único sítio que lhe ocorrera onde poder-se-ia servir do que necessitasse para a sua humilde sobrevivência. A solidão criara-lhe o mau hábito de realizar monólogos em silêncio, que se traduziam por sons ou pequenos gemidos sempre que um obstáculo surgia. Conversava sobre si para si, na expectativa de encontrar respostas para as perguntas incertas que a intrigavam. Neste dia, em especial, era assaltada com questões referentes ao acontecimento da noite anterior, no Vale das Estrelas. Conhecera um Dragão que a fizera sentir um misto de medo e curiosidade. Nunca antes tinha estado tão perto de um, apenas ouvira histórias sinistras dos comportamentos e hábitos carniceiros que estes exerciam antes de consumirem as suas presas. Mas este era diferente, tinha um olhar doce. Era como se todo ele se tivesse tornado num sonho.
Finalmente chegara ao seu destino. Era essencial limpar a sua mente de todas essas imagens e pensamentos para que se pudesse concentrar e recolher mantimentos o mais depressa possível. Era uma zona insegura. Nunca gostara de fronteiras pois não eram nem deixavam de ser. E por momentos desejava encontrar novamente o Dragão, ser surpreendida pelo seu olhar. O vento ficou mais forte fazendo-a voltar à realidade. Apressou-se e iniciou o regresso. O temporal atrasava-a, dificultando-lhe a visão. Os deuses deviam estar mesmo descontentes. Pressentiu ao ver as árvores distantes curvarem-se que, em breve, chegaria até sim uma corrente de ar tão forte que certamente a derrubaria. Era o fim. O medo contaminou-a, fazendo-a fechar os olhos com força e enrolar-se sobre si mesma. Aproximava-se velozmente, conseguia senti-la. Soltaram-se as lágrimas da despedida, como pérolas que se perdiam na imensidão do tempo. Até que algo a envolveu e o estranho calor que sentia perto do seu corpo fê-la abrir os olhos novamente. Não podia acreditar, era o Dragão que a envolvia com as suas longas asas protegendo-a da tempestade.
- Não temas, nada de mal te vai acontecer. – prometeu o Dragão.
- Mas porque me ajudas? – perguntou a Lebre, confusa.
- Os sonhos são eternos e a tua existência tem a sua razão de ser. – e olhou-a com os seus grandes olhos, com uma terna expressão.
E permaneceram, silenciosamente, olhando um para os olhos do outro, aguardando o cessar da tormenta.

terça-feira, abril 08, 2008

Ah! Megamisama Rainbow

O desejo que hoje consumo
Não é mais que a ânsia de sonhar
Partilhar parte de um todo
Parte de mim, parte de ti

Uma mão estendida
Que seguro para não me perder
Porque as sombras são densas
E a luz trouxe-me a Lua

Dorme anjo perdido
Para que te encontres
Não neste Mundo que habitas
Mas na fantasia de um olhar

Doce com toque de ceda
A minha pele anseia-te
E os meus lábios pedem mais
Desse teu néctar floral

Um sonho que atravessa a ponte
Cresce e aquece a alma
Parte de mim, parte de ti
Um todo de magia

segunda-feira, abril 07, 2008


O Dragão e a Lebre

- I -

Naquela noite a Lua fê-la sair da sua toca. Sempre gostara de a apreciar, de se ver envolvida pela sua luz, mas o medo dos predadores obrigavam-na a refugiar-se. Mas desta vez não conseguiu resistir e dirigiu-se para onde a pudesse observar melhor. Ao chegar ao Vale da Estrelas, deixou-se ficar, entre flores silvestres que se movimentavam ao sabor da suave brisa primaveril, libertando doces fragrâncias. Cedeu então ao brilho majestoso, perdendo-se na imensidão dos seus humildes sonhos.
Foi então que um vulto fez despertar os seus sentidos. Olhou para traz e a visão oferecida pelos seus olhos fê-la paralisar. Estava diante de um Dragão. Este olhava-a silenciosamente sem qualquer movimento que não a sua respiração. Por breves momentos, ficaram parados, olhando um para o outro: a Lebre porque receava pela sua segurança e o Dragão pela curiosidade. Ao ver que assustava a Lebre, voltou-se para a Lua, contemplando-a. “É o momento ideal para fugir”, pensou a lebre, mas não o conseguiu fazer. Intrigava-a a estranha paz do Dragão e os seus olhos de sonhador. Deixou-se ficar também.
- Porque estás aqui? – perguntou o Dragão, fazendo a Lebre tremer novamente.
- Vim observar a Lua, que há tanto tempo não o fazia. Faz-me sonhar! E tu?
- Também tenho o mesmo gosto, de sonhar incessantemente, sempre na ânsia de querer mais.
- Não me vais fazer mal?
- Descansa, enquanto aqui estiver poderás apreciar o momento que tanto ansiavas. Não temas por mim, mas pelos outros.
Fez-se novamente silêncio. Apenas as melodias nocturnas os envolviam. E desejaram que assim fosse, por mais um pouco.
Antecipadamente, a lembrança da sua segurança fez com que a Lebre sentisse a necessidade de se apressar. Despediu-se do Dragão, prometendo voltar no dia seguinte. O Dragão sorriu docemente, vendo a Lebre afastar-se. Talvez assim fosse o destino. Nunca se sabe o que a magia de um sonho pode trazer. E melhor que sonhar, é partilhar os mesmos.

sexta-feira, abril 04, 2008


Se a porta se abrir
Não deixes encerrar o sonho
Nem me digas que foi ontem
E que hoje já é tarde

Abre a janela do Sol
E deixa a brisa entrar
Com pétalas de faz de conta
E um sorriso tímido
Respira a vida
Faz de ti sonhador

Quando faltarem as ternuras
Que o habito velho deixou
Cria uma história
Feliz como as outras
Mas só tua

E se não chegar ao coração
Vive a primavera
A cor das flores simples
E seus doces perfumes
Dias

Sempre soubera que o despertar seria o começo para um dia que não queria certamente ter, mas como as surpresas existem, arriscava sempre, até porque as obrigações a que se tinha comprometido assim o exigiam. Ainda de olhos cerrados e com o cérebro embrutecido pelas escassas horas de sono, desligava aquele velho despertador que emitia um som que não inspirava boas vontades. Achava arrepiante aquela invenção. Como poderiam as pessoas sujeitarem-se a estranhos instrumentos, distribuidores do chamado “mau humor matinal”. Até ele se tinha deixado consumir por esse hábito. Era o que as grandes cidades e a competição excessiva traziam, mau humor e noites mal dormidas. Estúpidas regras e putas daquelas que as tinham feito, ou cabrões se forem homens, pensava. E então arrastava-se pelo quarto, procurando num monte de roupa aquela que iria vestir, com a preocupação de não fugir a um estilo que ele próprio tinha traçado.
O primeiro contacto que tinha com o corpo era aquele arrepio provocado pela água quente do duche. Era também o primeiro, e talvez o único, prazer do dia. Sentir-se embebido na transparência e nos odores perfumados com que envolvia o corpo magro e sem linhas definidas. Dedicava sempre dois ou três minutos para ficar simplesmente debaixo do chuveiro e sentir os ombros serem massajados por um ser inexistente. Chegava a sentir-se apetecido, até ao momento em que lhe vinha a preocupação de desligar a água, limpar-se e vestir-se, com aquele pensamento irritante de “vou chegar atrasado”.
Depois saía, ao som de uma música qualquer escolhida na véspera que o fazia sentir-se mais animado que o ruído urbano. Já lhe bastavam os odores dos tubos de escape que arrotavam nuvens de fumo negro e os encontrões de gente mal educada, confinada à pressa de serem bactérias sociais.
E era sempre tudo igual, visto à transparência de não ser vidente e de não possuir uma bola de cristal bem polida. Cansava-o mais a semelhança dos dias que as tarefas dos mesmos. Mas talvez fosse diferente amanhã e sentia o desejo de lutar para concretizar essa mesma vontade. Ser cinzento como os outros com que se cruzava na rua não era propriamente algo que o iria fazer sentir-se concretizado, até porque já bastavam as construções que se debruçavam sobre si, na ameaça de ruir só pelo gozo de fazer correr mais um pouco de sangue que pudesse fervilhar na calçada suja pelos mendigos e engravatados, abrindo manchetes de jornais gratuitos e pagos, sempre com o sensacionalismo de criar aquela estranha felicidade de ter acontecido ao outro e ser tema de conversa por dois ou três dias, até algo mais entusiástico suceder.
Metade do dia era dedicado a ouvir ensinamentos pré concebidos e a registá-los para mais tarde os saber vomitar para uma folha qualquer para que alguém avaliasse todas as partículas, na ânsia de encontrar algo mais criativo para rasurar ou a ausência da palavra que ditara na oitava oração e que escapara ao aluno desatento. O que lhe valia eram os sorrisos dos colegas que adoptara e que o tinham adoptado, em cumplicidade de terem sonhos semelhantes e aventuras a partilhar, entre almoços no bar da faculdade ou num pita shoarma ou, em dias de Sol, por jardins verdes, com direito a sessões fotográficas ou leituras jornalísticas, de phones nas orelhas e comentários oportunos. A outra metade era a tensão laboral de cumprir um objectivo traçado pela sorte, adormecido na ausência do raciocínio intelectual ou algo mais prático. Era uma máquina ligada a um telefone e a um computador obsoletos, numa grande empresa, como sempre são, independentemente das condições que oferecem. Pensando bem, as condições eram melhores que as das crianças de um país subdesenvolvido qualquer, que cosem bolas de futebol e ténis, que mais tarde serão calçados por meninos endinheirados e consumidos pela necessidade da moda, para que possam ter direito a uma malga de arroz mal servida. E nós por cá, sub nutridos de inteligência.
É já na véspera de um novo dia que se tranca no seu pequeno quarto, percorrendo a consciência de não ser infeliz, mas de também não poder afirmar que é feliz. Embrenha-se na sua estranha vontade de ser algo mais e de partilhar a sua existência num terno abraço e num beijo apaixonado. Romantismos à parte, deseja que o sono chegue e, enquanto se faz difícil, troca palavras que cria e recria, muitas vezes na ansiedade de serem ouvidas.

quinta-feira, abril 03, 2008

KOKIA - Ai no Melody AMV (Various Anime)

anata marude komorebi no you ni
watashi ni ikiru kibou kureta shiawase ga waratta

kioku no naka no nukumori mune ni
nani yori mo tsuyoi kizuna wo kanjite iru wa

watashi ga watashi rashiku irareru no wa anata ga iru kara

*1 anata wo ai shite umareta uta wo utaou
watashi no ai no akashi ni
shinjite doko made mo todoke watashi no omoi
anata ga ikite iru koto ga shinjitsu

*2 itooshikute ureshikute kanashikute setsunakute
kuyashikute modokashikute... ai no MERODI-

karamiatta kokoro no ito wo
tokihogusu mae ni wakareta tsurakutemo nozonda

"kono ai wo tsuranukou" hitorigoto no you ni
‰i‹v(towa) ni chikai wo tateru

itooshisa ni tsutsumareru MERODI- maiagare sora ni

sono “µ(me) ni mienai taisetsu na mono wo miseyou
afureru ai no izumi ni
omoi wa doko made mo fukaku toki wo koetemo
ikite yukeru sore ga watashi no ai no uta

mmm fureru hada wo toiki ga nozoru
"nee mou nechatta no?" sore nara mimimoto de "I love you"

*1 repeat

sono “µ(me) ni mienai taisetsu na mono wo miseyou
afureru ai no izumi ni
anata to deatte nagaredashita kono MERODI-
furuete iru ima kono toki mo ikiteru

*2 repeat 2x

terça-feira, abril 01, 2008

No silêncio de uma noite solitária
O silêncio fê-lo sentir que já a luz se recolhera, abraçada pelas sombras irrequietas a que chamam noite. Não era mais ninguém e não queria ser. Ser-se assim, na simplicidade das palavras que ditava para o vazio, em pausas para um cigarro mal aceso. A invisibilidade da existência que traçara aos olhos da mente alheia não o admirava. Não era mais que aquele vulto incómodo, que caminhava, errante, pela cidade triste quando o tempo o permitia. Na verdade não era a cidade que era triste, pelo menos em dias de Sol, em que a capital mostrava os seus pequenos encantos, numa magia viciante e alucinogénia por vezes, num miradouro com vista panorâmica para um Tejo adormecido pelo canto das Tágides.
Era jovem e a forma como encarava as emoções arrepiavam-no. Sempre aquela busca incessante por uma parte que o completasse e, apesar de tudo, não a encontrara. Talvez não existisse ou se fizesse modesta. E essa solidão afastava-o por uma porta aberta para a imensidão de um sonho que se fizera desde que descobrira o significado da palavra amar. Eram todas aquelas estrelas que o olhavam quando se deitava na areia humedecida pela noite, enquanto o mar rugia e a lua o escutava, que o faziam inundar-se de sonhos e fantasias como parte da sua própria existência, humilde.
Sentia frio, frio de um toque que insistia em não chegar, em não o envolver em ternuras eternas do que é o presente, sem passado ou futuro, porque o primeiro cheira a mofo e o segundo só o fazia pensar de mais. Mas para que não me perca, o abraço faz-se tardio e o sufoco de um beijo profundo agonia-o por não existir.
Embrulhado numa manta, relembra o Verão com o gosto salgado da pele quente e aqueles mergulhos na rebentação das ondas. E sorri, com a imagem daquele sorriso de gargalhada contida, porque era tímido de mais para dizer que era feliz. E mesmo quando fazia um beicinho de descontentamento, o pequeno coração palpitava de desejo que tudo aquilo acabasse para se poder deliciar com o calor do Sol numa toalha amarela e ler-lhe aquelas notícias que mais ninguém queria ouvir, com a preocupação de não lhe falarem as palavras que os outros haviam escrito com tanto empenho, ou talvez nenhum, o que não era importante, porque importante era o momento em que as lia em voz alta.
Mas voltando agora à fria noite de primavera, tudo o resto são pequenas histórias que guarda em si ternamente, porque não aprendeu a odiar. Uns diziam-lhe que era mau, outros que era bom de mais. Já não se confundia, sabia que não podia ser do bom gosto de todas as bocas, apenas daquelas que realmente lhe interessavam.

domingo, março 09, 2008


Prazer Efémero

Estranho-me hoje por não sentir
A ansiedade dos teus abraços
Que ouso aceitar na loucura do encanto,
Ainda que o amanhã saiba não existir.

Percorro então o estranho desejo
De saborear o enlear dos nossos corpos,
Suados de prazer e cumplicidade,
Sem apelar à razão, pois amanhã estaremos mortos.

Já na sepultura recordar-te-ei
Sem flores ou tristezas vãs,
Pois no fim comer-nos-ão os vermes
Que nos vão defecar nos infernos.

quarta-feira, março 05, 2008

- I -
O Despertar



A chuva finalmente a acordara. Escorria-lhe pela branca face, como pérolas perdidas. Abriu os olhos, da cor do mais doce e puro mel, e olhou à sua volta na tentativa de reconhecer o local. As trevas da noite envolviam a densa floresta em que se encontrava. A cabeça doía-lhe e sentia-se fraca. Não sabia onde estava. Tentou recorrer à sua memória, queria lembrar-se de como teria ido ali parar. O coração disparou: não sabia sequer quem era. Tinha a mente vazia de qualquer recordação. Sentia o corpo gelado, coberto por um top branco e uns calções curtos castanhos, ambos molhados e enlameados, assim como as botas que já não se distinguiam da lama. Reparou que, ao pescoço, transportava um cristal do tamanho de uma noz, que emitia uma ténue luz quente. Não podia continuar ali. Para a sua própria sobrevivência, o mais importante agora era encontrar um abrigo, depois poderia tentar chegar a uma conclusão lógica. Levantou-se e começou a andar pela floresta. Parecia-lhe tudo igual. Grandes árvores que se erguiam para as nuvens do céu, não mostrando qualquer sinal de vida. Pareciam feitas da mais fria e sombria pedra que alguma vez pudesse existir.
O tempo passava e sentia-se cada vez mais cansada e a cair em desespero. Nem mesmo os seus dezassete anos e o seu corpo atlético podiam suportar tanto esforço. Os seus longos cabelos pareciam chocolate a escorrer-lhe pela cara, dificultando-lhe a visão. Sem saber o que fazer, deixa-se cair de joelhos e abraça-se, agarrando as costelas, curvada para o chão. As lágrimas começam a escorrer-lhe pela cara, diluindo-se na chuva.
O seu soluçar interrompe-se quando escuta um uivo longo. Deixa-se ficar à escuta, silenciando todo o seu corpo. Um ruído vindo dos arbustos que se encontravam atrás de si fazem-na voltar-se, com os olhos carregados de lágrimas e medo. Destes surge um lobo, branco como a neve. Tenta correr, mas tropeça e cai no chão. O medo impede-a de se mover e limita-se a tremer, olhando para o lobo, aterrorizada. Este aproxima-se sem pressas. Afinal, a sua presa está demasiado assustada e fraca para fugir. O coração bate freneticamente e a respiração está descontrolada. Já não aguenta mais, nem forças tem para correr ou mesmo gritar. “Porquê?”, pergunta para si mesma, “é o fim”. Foi a última coisa em que pensou. Depois, os braços fraquejaram e deixaram que o corpo se estendesse na terra fria, inanimado.

segunda-feira, março 03, 2008

Flames of Heaven

Anime: Shakugan no Shana
Song: In The Shadows - The Rasmus

No sleep
No sleep until I am done with finding the answer
Won't stop
Won't stop before I find a cure for this cancer
Sometimes
I feel I going down and so disconnected
Somehow
I know that I am haunted to be wanted

I've been watching
I've been waiting
In the shadows all my time
I've been searching
I've been living
For tomorrows all my life

In the shadows

In the shadows

They say
That i must learn to kill before i can feel safe
But I
I rather kill myself then turn into their slave
Sometimes
I feel that I should go and play with the thunder
Somehow
I just don't wanna stay and wait for a wonder

I've been watching
I've been waiting
In the shadows all my time
I've been searching
I've been living
For tomorrows all my life

Lately
I been walking
walking in circles,
watching
waiting for something
Feel me
touch me
heal me,
come take me higher

I've been watching
I've been waiting
In the shadows all my time
I've been searching
I've been living
For tomorrows all my life
I've been watching
I've been waiting
I've been searching
I've been living for tomorrows

In the shadows

In the shadows
I've been waiting

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Olho a imagem oferecida pelo espelho, mas nela não encontro mais que uma sombra daquilo que sou, apenas uma sombra disforme que nem a mim agrada. Fecho os olhos, de punhos serrados, na tentativa de não cair no erro de me condenar a sete anos de má sorte. Mas porquê? Que adianta. Sou muito mais que isso, ou pelo menos julgo ser.
Já não me encontro e o quarto está escuro. Tacteio o vazio numa estranha vontade de encontrar o que não existe. Se existe eu não vejo. Estarei cego? Estarei senil? Talvez. Há momentos em que procuro o que poderia completar. Não procuro em mim, procuro no outro. Mas não existe nenhum outro se não eu, e isso não me chega, assim penso. Provavelmente não penso sequer, mas isso é outra questão que, sinceramente, não me interessa abordar, porque a noite já é suficientemente entediante e solitária para me deixar cair, a mim e a quem tais insanas palavras lê, num rasgo de bocejos e lágrimas adormecidas.
Não vejo, não saboreio, não sinto. E mais não digo. Talvez seja a dita castidade promíscua. Posso ver, saborear e sentir a carne, de tal não me privaram as más línguas, mas a carne é seca. E o sumo? Aquela vontade, aquela cumplicidade numa troca de olhares eróticos, aquele desejo de ser um todo, o toque que provoca arrepios escaldantes, ardendo todo o corpo e a alma num momento de infinito prazer.
Sei que não me devo deixar consumir pelo medo de me perder. Jamais poderei permitir que tal aconteça. Por isso refugio-me na espuma da rebentação das ondas, iluminadas pela Lua cheia, cheia de magia, cheia de sonhos, cheia de mim.

sábado, fevereiro 23, 2008

São Pobres, Senhor

Pobres daqueles que vivem no silêncio
E que se entregam à dormência do pensamento
Com medo de represálias alheias
À fuga de um padrão que dizem ser normal.

Mas estes lábios não se serrarão
Em silêncios ou brandas securas,
Porque maior que o erro de falar sem receio
É viver na penumbra do Mundo;

E não me venham com aquela imagem
De simpatia cínica e cordial,
Porque de putas de sorriso de punhal
Estou eu agoniado até às tripas!

Há mais penúria de inteligência
Que de dinheiro ganancioso;
Esta não acalma a fome física
E a outra, coitada, é esquelética.

Mas não percamos a grande fé!
Oremos ao Senhor (seja ele quem for)
Que dar-nos-á alento para sobreviver
Já que viver parece muito.

Somos pobres, pobrezinhos escanzelados,
Pequeninos e de voz medrosa,
Provincianos de cidades sujas,
Nunca tão sujas como o nosso carácter.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008


O Renascer da Lua Nova

Ouvem-se os sussurros da noite
Num pronuncio de morte
Ditado pelos astros longínquos
Onde serei o réu da Lua nova.

Cai sobre mim o negro véu
Para que não ouse olhar o passado;
A boca é cozida de linho
Para que não ouse cantar o passado;
O corpo é gelado no silêncio
Para que não sinta ou escute o passado;

E ele ajoelha-se perante os deuses
Elevando-se o espírito rebelde,
De pele branca e brilhante,
Com asas de demónio errante.

Abraça a carne do criador
Chorando o seu amargo sangue,
Pois também ele asfixia de dor
Ardente no frenético coração
E o desejo da própria extinção
Partilha no insano sofrimento.

Espírito e carne unidos
Perante a vontade maior
Aguardarão que os não-vivos
Lhes tragam sorte melhor…

Abre agora os braços ao mar,
Sente o seu abraço e a brisa suave:
A força renovada da alma
Envolta na espuma branca
Das marés que os teus olhos brotaram
Enxugadas pela gloriosa Lua.

Que novos sonhos se criem
Ou renasçam das intempéries
Como a ave sagrada se elevou
Das mais negras cinzas.

Aquece agora o corpo cansado
Para que volte a sentir no futuro;
Beija-lhe os lábios secos
Para que volte a cantar no futuro;
Dá-lhe a luz da Lua nova
Para que veja a o brilho futuro.

Amanhã terás esquecido
O renascer do passado de hoje;
E que o espírito aguarde
Os sinais do Mar e da Lua…

terça-feira, fevereiro 05, 2008

You are my love - Sakura's song - Tsubasa Chronicle

title : You are my love
sing by Sakura ~ Yui Makino version

song lyrics english version:

Kiss me sweet
i'm sleeping in silence
all alone
in ice and snow

in my dream
im calling your name
you are my love

in your eyes
I search for my memory
lost in vain
so far in the scenery
hold me tight,
and swear again and again
we'll never be apart

If you could touch my feathers softly
I'll give you my love
we set sail in the darkness of the night
out to the sea
to find me there
to find you there
love me now
if you dare...

Kiss me sweet
i'm sleeping in sorrow
all alone
to see you tomorrow

in my dream
I'm calling your name
you are my love...
my love...

song lyrics japan version:

Ame ni nureta hoho wa
namida no nioi ga shita
yasashii manazashi no
tabibito

Shizuka ni hibiiteru
natsukashii ongaku
omoidasenai kioku
samayou

Yume wa tobitatsu no chiisa na tsubasa de
omoi no kienai basho made
futari de
tooi umi wo sora wo koete

Kurai yoru no naka de
watashi wo terashiteru
yasashii manazashi no
anata ni
aitai...

Marcha Carnavalesca

É Carnaval. Tempo de loucos. Desfilam nas ruas putrefactas, com mil e uma caras que escondem a verdade, como sempre, mas com desculpa festiva.
Chovem serpentinas e confetis, lançados por um palhaço aparentemente feliz. Esconde a tristeza nas suas pinturas exageradamente extravagantes. E dança e gesticula expressões cómicas, soprando uma trompete de plástico colorida, já que a vida lhe roubou a voz e só assim se faz ouvir. Pobre palhaço. Tenta dar o que lhe roubaram, aquele sorriso genuíno ou uma gargalhada sincera.
Desaparece pelas saias saloias das varinas mas vestidas e assombrosas. Fedem a perfume barato e não é peixe o que vendem. Ou talvez seja, segundo dizem as más-línguas. Vêm de braço dado com anjos perversos e diabos de sorriso malicioso. É noite de festa. Depois de resto é o costume. Super heróis amedrontados, princesas sem dote, embebidas em vinho, génios da tabuada ou piratas de água doce.
As máscaras são variadas. Uns vestem-se do que podem. Outros do que queriam ser quando eram pequenos. Há aqueles que são o que sempre foram e recalcaram ao longo do ano. Por fim, os que cedem à extravagancia para que sejam vistos. São o que quiserem ser, num desfile insano e mal articulado. Dançam embriagados pela vontade obscura.
Parece que vejo todas as cores movimentando-se e misturando-se de forma berrante. Agonia-me. Sei que amanhã serão apenas uma: o preto. A cor da morte que se espalha nas ruas desertas, com o odor a álcool e vómito que fermentam nos passeios. É o presságio do fim das danças loucas, das gargalhadas insanas. E eu restrinjo-me ao olhar do silêncio.

terça-feira, janeiro 22, 2008


Procuro-te

Procuro-te na noite
O teu olhar, o teu toque
Espio o teu corpo despido
Procuro o teu calor
Mas a cama está vazia

Já não sonho com a vida
São apenas sombras
De uma causa esquecida

As sombras ganham forma
O medo cresce e o corpo estremece
Cria-se um monstro
Surge o que não quis ser
O que um dia se escondeu

Agora governa e finge
Mata mais um pouco de mim
Arranha a alma nua

Procuro-te na noite
As lágrimas cegam a razão
Já cansa procurar
Mas continuo, insano como antes
Porque a cama está vazia

sexta-feira, janeiro 18, 2008

The Little Mermaid - Ariel

My name is Ariel
And I want to be free
It is your sorrow
That has made a slave of me
Forgive me
Forgive me
But you are all I know
Forgive me for leaving

The day is breaking now
It's time to go away
I'm so afraid to leave
But more afraid to stay
Forgive me
For leavning
The sadness in your eyes
Forgive me

Let the wind and ocean water
Wash across your hands
Wash away a thousand footsteps
Wash us all away
Like sand

The sky has fallen
Now the earth is dry and torn
I know you're tired
From the violence of the storm

I love you
I love you
But you are all I know
Forgive me

Let the wind and ocean water
Wash across your hands
Wash away a thousand footsteps
Wash us all away

Let the wind and ocean water
Wash across your hands
Wash away a thousand memories
Wash us all away
Like sand

My name is Ariel

quarta-feira, janeiro 16, 2008


Dream Diary

I

Memórias Passadas

No topo de uma falésia enfrento as trevas de uma noite sem lua ou estrelas. O Mar chama-me e eu oiço os seus murmúrios trazidos pelo vento quente. Envolto numa capa branca, fito a rebentação das ondas lá em baixo. Soa mais alto, e uma luz surge, vinda das suas profundezas. O corpo enfraquece e deixa-se cair e engolir pelas águas agitadas. Abro os olhos. Espanta-me conseguir respirar. E a luz aproxima-se, envolvendo-me na inconsciência da sua origem.
Acordo no infinito sombrio, cujo solo preenche-se por uma fina camada de água. Estou só e despido do que me prende ao senso comum. Toda a solidão em que me encontro faz-me cair no desespero de existir. Abraço-me e deixo que as lágrimas façam parte do momento. Oiço passos que ecoam no meu pensamento. Sou eu. Não como sou agora, mas como fui em tempos, quando a minha alma ainda não tinha sido corrompida.
“Não chores. Não estás só!”
Aquela criança sorri para mim e estende-me a mão.
“Vem comigo. Quero mostrar-te uma coisa.”
E realmente mostrou. Imagens fizeram-se surgir, do mais longínquo inconsciente. Imagens do que já passou. De todos os momentos em que sorri e fui feliz. Cada vez mais rápido. E a criança limita-se a sorrir para mim, enquanto desvanece-se deixando-me só, mais uma vez. Ainda oiço a sua voz na minha cabeça:
“Não estás só.”
Abraço-me e deixo-me envolver pela luz que me faz despertar, para o fim do sonho.

terça-feira, janeiro 15, 2008


A Dor de um Mortal

Derivo na noite com a alma nua,
Procurando no céu as estrelas e a Lua.
Faz frio, o corpo vacila e deixa-se morrer;
Estou cansado desta busca eterna.
Sou como um mortal
Sem as asas que da luz vi nascer,
Feitas de sonhos sublimes e esperança…

Venda-me os olhos
Para que não veja a escuridão;
Esta dor que me abraça
Nas trevas dos meus medos
Faz-me insano, sem razão.

Quase que me sinto trespassado
Por mil espadas empunhadas
Pelas sombras amarguradas
De um coração devassado
Pelas mãos de quem o entreguei!

Fui presa de uma ser
A quem o amor e a carne não bastou
Para saciar a fome voraz,
Até a alma foi despida de sonhos
E amordaçada em espinhos de aço.

Chorei rios de prata,
Memórias que não preenchem o vazio;
Tempo que não te fez acreditar
No que mais sincero tinha para te dar;
Fizeste do eterno efémero;
Deixaste morrer a chama
Que iluminava o nosso caminho…

quinta-feira, janeiro 10, 2008


Paz Campestre

Cheguei. Ao fim de três longas horas de viagem, incómodas e apertadas pelo excesso de bagagem, ao som de rádios locais, alcancei o tão esperado destino. Tudo o resto ficou para trás, aquela ruidosa e monstruosa cidade e a rotina que me prendia com as suas correntes de aço, inquebráveis. Nem acredito que aqui estou, mais uma vez, sentado nesta pedra que já me conhece desde pequeno, aconchegado ao abrigo de uma figueira de quem o tempo já ninguém recorda. Parece que me aguardavam impacientes, pois estão como me recordo delas. Aqui não há buzinas, não há gritos, não há crianças a chorar. Não há correrias nem autocarros para apanhar. Tenho apenas o silêncio vivo da natureza que me envolve e abraça novamente, como sempre abraçou.
Que saudade tinha destas tardes de Agosto, tardes em que o canto da cigarra me faz reviver a nostalgia de outros tempos, tempos em que a minha própria inocência se misturava com a fantasia de que poderia aqui ficar na eternidade do tempo. Este é o meu santuário. Não conheço outro destino se não este, que me apazigua e me oferece momentos de reflexão, longe da intelectualidade que nos vicia. Nenhum outro me chama assim, sem palavras, apenas com as recordações que trago na memória. Aqui aprende-se com as sensações e com os sentidos que a natureza nos deu. Aprende-se a respirar.
Olho à minha volta. Não vejo ninguém. Apenas casas distantes, envelhecidas. Semeadas por montes e vales, aguardam serenamente por alguém que lhes conte histórias de outros mundos, de outras vidas que não as suas. Sabem que não virá ninguém. Deixaram-se ficar, com os poucos que nelas habitam, esquecidos pelos filhos que partiram, abandonando a terra que os viu nascer e que sempre lhes deu tudo aquilo que na verdade precisam. Mas, os que ficaram, não lamentam a solidão pois, na verdade, não estão sós. Têm muito mais que pessoas, algo que sempre lá esteve e que conhecem melhor que ninguém. Restringem-se a aguardar a morte, confiantes, com um sorriso na face e sem medos, porque morrer é renascer no eterno descanso que sempre aqui tiveram. Deram toda a sua vida para construir sonhos só seus, e o orgulho é infinito. São felizes. Eu, que venho de fora, de um mundo de cores cinzentas, e que penso ter tudo, por vezes não compreendo como podem ser felizes, sem bens materiais. Aí reside a grande diferença. Não é contentarem-se com pouco, mas é terem tudo o que realmente precisam, aliado à paz que o mesmo lhes oferece. Nós, fantasmas da cidade, pensamos que temos tudo, mas, na verdade falta-nos muito. Falta-nos abandonar o materialismo e encontrarmo-nos bem com aquilo que a natureza nos oferece. Nós somos infelizes, mas pensamos o contrário.
O Sol está tão quente que não há ninguém que se atreva a espreitar pelas portas de madeira e ferro já lascadas, ou pelas janelas de vidro fosco. Parece que toda a aldeia adormeceu, num sono profundo, pousando para uma enorme tela, pincelada de traços incertos por uma mão cansada e enrugada, que mistura, sem saber, todas as cores da vida que já passou.
São duas horas da tarde. Ainda me resta muito tempo até à hora de jantar e o almoço foi farto o suficiente para me deixar aconchegado durante as próximas horas. Sorriu para mim mesmo. É estranho. Toda esta calma me é familiar, mas sempre me parecera tão distante nos últimos meses em que me mantive ausente. Talvez seja por me ter deixado consumir pela sombria cidade. Mas agora não importa, posso ser eu novamente. Posso abrir de novo a mente e deixar-me seduzir pelas maravilhas que este espaço, este mundo utópico, me proporciona. Posso escutar os seus ensinamentos. Aprender a ser humano.
Uma pequena brisa aproxima-se, tocando nas flores silvestres que balançam suavemente. O meu olhar prende-se nas suas cores. Rosa, amarelo, branco, dourado, azul, verde. Perco-me em tanta diversidade. Parece que se movem com o esvoaçar ingénuo das borboletas. Sempre que pousam numa rústica flor fazem-na curvar-se, ligeiramente, voltando subir graciosamente. Depois, abrem as suas asas, salpicadas de tons castanhos, negros e brancos, exibindo-as, para as voltar a fechar, suavemente, sem pressas, mantendo a curiosidade de quem, como eu, as observa. Não têm onde ir. E tudo isto me consome e hipnotiza, levando-me a fantasiar um pouco. Por momentos, breves, mas profundos momentos, parecem-me fadas que pairam de flor em flor, procurando a mais bela, nunca tão bela quanto elas. Quase que as vejo sorrir, escondendo-se entre as pétalas, numa valsa lenta. Gostava de ser assim. Ser livre. Ser eternamente deste mundo, um mundo sem tempo ou movimentos furtivos. Não há dor no que vejo. E invejo-as, fazendo-me despertar, por tal sentimento, por equipará-las ao mundo real, ainda que ligeiramente atordoado. Nunca soube de alguma borboleta que chorasse. Limitam-se a viver, a fazer parte desta fantasia floral. Começam por não aparentar qualquer beleza quando nascem, para mais tarde se envolverem nos finos fios, que tecem lentamente, para poderem renascer. Pudesse eu, ainda lagarta, renascer como elas. Assim também eu seria livre.
Fecho os olhos e encosto-me ao enrugado tronco da grande e majestosa árvore. Sinto a fragrância do florescer da eterna paz invadir-me, provocando-me alguma sonolência. Até a respiração acalma e o coração descansa. Todo o meu corpo parece querer levitar. Sem se mover, tenta alcançar as nuvens de algodão que flutuam sobre si. Afinal já não quer ser borboleta, mas sim andorinha, para poder fugir do frio Inverno sempre que este ameaça aproximar-se. Poder viver numa eterna primavera e imortalizar os sonhos.
Volto a abrir os olhos. Continua tudo igual. Seguro num Pom-Pom Campestre e sopro-o para o céu azul. Observando os seus pequenos fragmentos seguirem a suave brisa que os guia, para que possam também renascer, tento aprender algo com eles. Inspiram-me. Tal como ele, também os sonhos, que, por vezes, julgamos terem sido destruídos, devem ser levados pelo tempo, ainda que dispersos em estilhaços, até que encontrem novas forças para renascer. Diferentes, talvez, mas com outra força, com outra vida. Na natureza, na vida, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Sábias palavras de Lavoiser, que agora recordo. É como a lenda da Fénix, que renasce das cinzas.
Decido abandonar este santuário por agora. Tenho saudade de ver o rio. Felizmente é perto e não terei de andar muito. Sigo as pegadas da memória. Conheço bem estes caminhos. Quase que os posso percorrer de olhos fechados seguindo o meu instinto. As silvas, pelas quais vou passando, estão carregadas de amoras, que protegem com os seus espinhos. Atrevo-me a roubar alguns destes frutos proibidos para que os possa degustar enquanto não alcanço o meu desejo. A vida também é como estas silvas. Temos de passar por espinhos, ultrapassá-los evitando que estes nos firam. Por vezes há um ou outro que nos é cravado, mas vale sempre a pena. O resultado é o doce fruto da concretização que, quanto mais difícil for chegar até ele, melhor irá saber. As amoras estão quentes, parecem pequenos corações. Talvez o sejam, corações que a natureza me entrega, para que não me sinta só. Este sim, é o amor genuíno, que não magoa, apenas quando chega a hora de partir. Mas não me vou preocupar com essa triste imagem por agora. Sei que ainda falta. Estou preso na eternidade, enquanto caminhar por estes trilhos escondidos, rodeado de flores e pinhais. A música é o balançar dos ramos, o cantar dos pássaros e das cigarras, os meus passos, a minha respiração e o suave batimento do coração. Esta sim é perfeita. Embala-me, fazendo o corpo esquecer as suas limitações físicas e quase flutuar até ao rio.
Já consigo ver o velho barco que se encontra na margem. Sempre o vi ali, parado, preso com a mesma corda de sempre, velha, mas robusta. Sento-me nele, fazendo-o baloiçar suavemente. Imagino como seria bom poder descer o rio nesta pequena embarcação. O rio parece coberto de cristais reluzentes, que ondulam. Vejo-me descer este rio de prata, vagarosamente, sem remos, sem leme, até onde ele me quiser levar. Não temo o meu destino. Afinal, sei que posso confiar-me, deixar-me ficar, nos seus braços. Uma suave brisa faz-se sentir. Sinto-a aproximar-se, pelo movimento das folhas das árvores que me fitam nas margens. Ao passar por mim, liberta-me de todos os fantasmas que ainda residiam na minha alma. E é como se me nascessem asas de luz, entregando-me a liberdade e a paz que sonhei em noites escuras e frias. Sinto-me mais leve que o próprio ar. Um novo “eu” renasceu. Está na altura de levantar voo. Abandono o velho barco, e sigo o meu instinto. O rio afasta-se devagar. Agora consigo visualizar todo este imenso mundo, o verde puro que se ergue para o azul, tentando tocar-lhe. Inspiro todo este etéreo mundo que se reflecte nos meus olhos. Vejo novas cores criarem-se. O céu tinge-se agora de tons laranja e rosa. Vejo-o esconder-se, descendo para trás das montanhas. Olho à minha volta. Tudo parece adormecer com ele. E, lá ao longe, vejo-me encostado à velha figueira, abraçando-me como quem abraça a vida.
Abro os olhos. Foi apenas um sonho, ou talvez algo mais. Já está a escurecer, mas não importa. Hoje bebi mais um pouco da doutrina deste mundo. Às estrelas, enquanto a Lua não se faz surgir, conto tudo o que aprendi. E elas ouvem-me, como sempre ouviram os meus desabafos. Também o ser humano devia ouvir. Mas não ouve, limita-se a praguejar as suas desgraças, culpando a má sorte, quando, na verdade, ele é o verdadeiro culpado do seu próprio fado. Levanto-me e acaricio a grande árvore. Conhece-me melhor que ninguém. Quase que a oiço respirar e sorrir para mim, ternamente. Despeço-me. Sei que, quando voltar, ela ainda ali estará, à minha espera, como sempre esteve.
Trabalho para a cadeira de Técnicas de Expressão Escrita I
Elaboração de um texto lento (de 4 páginas)

terça-feira, janeiro 01, 2008

Sailor Moon - Goodbye, My Lover

Para ti, ainda que a dor que me dás pareça eterna e a as lágrimas me ardam na alma.
Feliz 2008...

segunda-feira, dezembro 31, 2007


Sufoco

A noite consome-me a vontade de ser
E como uma maré afasta-me da margem,
Para o mais profundo e negro pensamento
Que alguma vez em mim surgiu,
Afundando-me no medo de viver.

E o corpo treme e vacila
Com o sufocante batimento do desespero,
Enlouquecendo a razão que resta em mim
Porque ousei o capricho de amar!

Rasgo a pele para que não me dê
Aos prazeres obscuros do desejo
E cravo na carne as palavras obscuras,
Para que não tas entregue;
Não quero ser igual aos outros.

Pudera eu arrancar o coração,
Consumido pelo fogo insano,
E espremer todas as vontades
Até que nada restasse deste enredo…

Peço apenas que na morte,
Se a pobreza alheia não o impedir,
Queimem este meu corpo,
Libertando a alma e suas memórias
Das correntes de toda uma vida.

terça-feira, dezembro 11, 2007


Vulgaridades

Hoje vi morrer um ser
Insignificante para uns,
Mas motivo de inspiração
Para os que vivem na emoção
De viver todos os dias
Como o primeiro do Mundo.

O Sol mostrou-se tímido,
Arrefecido pelo suave vento,
Gélido como as pessoas;
Fazia rodopiar as folhas
Despidas das árvores adormecidas
Pelo decorrer do velho tempo.

Foi nesse instante que vi,
Entre as dançantes folhas,
Uma pequena borboleta
Que ziguezagueava solitária
Numa luta persistente,
Confundindo-se em tons castanhos;

Observei-a por momentos,
Invejando a força e determinação,
A audácia de ser pequena,
De ser livre, em cores outonais!
Pudera eu um dia ser como ela,
Encanto de alma inocente…

Mas tudo o que é puro
Tem no Mundo um destino de morte.
E que má sorte a deste ser
Que tão pequeno enfrentou
A máquina criada pelo Homem
Sofrendo a tragédia esperada.

Da antiga graciosidade
Nada restou – desapareceu
Deixando o rasto sinistro
Da pureza devassada
Pela artificialidade humana,
Acontecimento já vulgar.

Ninguém a chorou ou notou;
A esta gente tudo é indiferente
Quando é pouco o sangue derramado;
Não dá conversa de escada
Nem exalta a curiosidade.
É apenas silêncio e cegueira.

sexta-feira, novembro 09, 2007


Suspiro Vegetativo

Sinto-me cansado de tanto cinzento.
É esta cor cinzenta, feita de pedra
Que me rodeia e se inclina cobre mim
Como se me quisesse derrubar.

E como se não fosse de mais,
Nesta densa praga doentia
Ouvem-se gritos, ruídos tenebrosos,
Ensurdecedores de qualquer raciocínio!

Aqui até o ar pesa e o vento suja;
A chuva queima nesta selva infernal
Onde tudo é fútil e artificial!

Somos súbditos do tempo
Numa corrida de rotina desenfreada,
Esgravatando na sanidade por dinheiro.

Insano, vagueio neste assombro
Buscando um pouco de vida
Que não tenha sido corrompida
Por este estranho e sinistro sistema;

Até o escasso verde que encontro
Me cheira a fantasmas de plástico!
Não fosse o original causar alergias,
Porque o que sobrevive parece repugnar…

Talvez um dia a nossa Mãe se zangue
E mostre que a lábia do Homem não chega
Para mudar o castigo merecido;

Os avisos já não bastam a estas almas,
De tão loucas que se tornaram;
Já nem medo sentem – são vegetais.

sexta-feira, novembro 02, 2007


Com quantas cores se pinta um sonho?

Com quantas cores se pinta um sonho?
Deixo que a minha alma se tinja,
Trespassada pela vida de um arco-íris.

Tenho sede, sede de mar, sede de amar,
De molhar os pés na água salgada
E envolver-me na espuma das ondas,
Esperando que o meu corpo se dissolva
Para fazer parte da sua imensidão.

Misturam-se as cores em tons suaves,
Tons de azul cor-de-céu-e-mar,
A areia morna do sol, o branco das ondas;
Começam a diluir-se em traços e curvas
Numa grande tela vazia.

Preciso de ar, ar de floresta densa,
Respirar e sentir esta dança,
Dança de aromas puros e virgens;
O toque suave do vento nas flores:
Cores que voam, fadas talvez…

Misturam-se as cores em tons vivos,
Cores silvestres que se diluem
Com a suavidade do mar
Numa cumplicidade intensa,
Preenchendo a grande tela sonhadora.

O sonho é de todas as cores do arco-íris
Numa mistura pura que cria o elo
Entre a alma, a fantasia e a vida:
Uma ponte, parte de mim para um todo,
Até onde eu conseguir sonhar!


Possível Fórmula da Vida

Pergunto-me numa noite sem lua,
De ventos despertos e alma nua:
Com que gestos se cria a vida
Para além da concepção já conhecida?

Há quem lhe atribua origem divina,
Outros, pela complexa ciência;
Mas o que há para lá do orgânico?

Quero ser criança novamente
E imaginar a fórmula secreta:

Dar-lhe-ia um pouco de fantasia,
Um sorriso sincero todos os dias
E algumas nuvens passageiras,
Para crescer e aprender
A ultrapassar as barreiras;
Para que nada viesse a faltar
Curiosidade para o mundo explorar;
Uma flor, um momento a desfrutar;
Amor, alguém para abraçar;
O mar, o horizonte, o respirar;
A paz, a força para o mundo mudar;
Esperança, para nunca desistir sem lutar…

Tantas coisas juntaria nesta receita,
Mas a imaginação já é pouca
E nem sempre nos ficam os traços de criança;
Sobraram hoje apenas alguns minutos…