domingo, agosto 24, 2008

DIÁRIO DE BORDO
- ROMA -
13 de Agosto de 2008

Após o pequeno-almoço, o dia iniciou-se com uma peregrinação ao Vaticano. A afronta aos antigos deuses, que não teme erguer a voz aos céus, dizendo-se dono do tempo, do destino e da razão. Centenas de pessoas na sua devoção, esperando piedosamente por entrar por portas além da grande praça e respirar o mofo divino. O que mais me fascinou foi a grande “coluna” no centro, que servia, também, de relógio de sol gigante, com os pontos cardiais marcados em redor, no solo. Em redor, grandes candeeiros com torneiras na sua base, jorrando água de canos certamente abençoados. O Sol arde sobre nós, susceptível à ilusão das aparições.

- Vaticano

Como humanos, nem o Senhor nos priva das necessidades nutricionais, pelo que foi necessária uma paragem para o almoço. A escolha recaiu sobre o Restaurant Bar Giggi, do actor e gran chef Luigi Tondinelli. Como primeiro prato, uma deliciosa lasanha, forte em tomate. Para segundo, um delicioso prato de vegetais assados e salteados, com todos os sabores originais.
A minha segunda escolha turística foi o Castel Sant’ Ângelo, relativamente perto do Vaticano, pelo que, quem como eu não receia os caminhos pedestres, poderá ir a pé. É incrível o património de todo este povo, assim como a sua dedicação em preservá-lo. Caminhei em torno do castelo, que me fez lembrar um grande cilindro de pedra, achatado.

- Castel San’t Ângelo

Também as pontes que unem as margens do rio Tevere, talhadas pela criatividade e empenho da sua época. A que mais me fascinou foi a Ponte Sant’ Ângelo, adornada de anjos que seguem os viajantes que a atravessam.

- Ponte Sant’ Ângelo

Pelo caminho ainda me cruzei com o Palazzo di Giustizia, antes de chegar à Piazza del Populo. Esta última mostrava influências egípcias, com esfinges de mármore, fontes, um pilar com hieróglifos egípcios e estátuas que evocavam a história do povo romano.

- Palazzo di Giustizia (f2805-2810)

- Piazza del Populo (f2811-2826)

Apesar do cansaço, prossegui a minha caminhada, subindo uma escadaria escondida por trás da praça, que me levou até à viale Belvedere, um óptimo miradouro que, lém de nos oferecer uma bela vista com o Vaticano no horizonte, tem vários bancos de pedra à sombra, ideais para repousar.

- viale Belvedere

Após alguma medonha inspiração, continuei a minha caminhada até Trinitá del Monti e Piazza di Spagna. Como o corpo já reclamava descanso, a atenção foi reduzida, pelo que regressei ao hotel onde desfrutei de um relaxante banho de espuma com hidromassagem.

- Trinitá del Monti

- Piazza di Spagna

O dia deu-se por terminado com uma pizza de queijo e salpicão picante, um gosto intenso e ligeiramente acalorado numa fina massa estaladiça.

sexta-feira, agosto 22, 2008

DIÁRIO DE BORDO
- ROMA -
12 de Agosto de 2008

É sempre bom quando temos direito a pequeno-almoço nos locais onde ficamos hospedados. Além de obrigar a que nos levantemos a horas decentes, dá-nos um pequeno momento de conforto antes das aventuras turísticas.

- Pequeno-almoço no hotel: fatia de pão de forma com doce caseiro de frutos silvestres, salada de frutas, leite e café.

O primeiro destino foi o Colesseu. Grandioso, como não poderia deixar de ser. Por momentos, ao ver indivíduos vestidos de soldados romanos do antigo império, senti-me recuar no tempo. Quase que posso afirmar ter ouvido os gritos do povo sedento de sangue, espectador do esquartejar dos membros e ventre dos que não tinham nome, o rugir dos leões esfomeados, o metal das espadas a cruzarem-se e o bramir das cornetas. Mais uma vez, o ar quente, mas carregado de pó perfumado e o odor a terra batida. Tudo em redor, a magnitude do antigo império.

- Colesseu

- Arco di Constantino

- Foro della Pace / Foro di Nerva / Foro di Cesare

- Monumento a Vittorio Emanuelle II

Ainda senti o gosto de um panini servido numa das muitas bancas, espalhadas pela cidade. O pão quente, achatado e ligeiramente tostado, com uma omeleta recheada de queijo forte e de sabor intenso, alface, fiambre e ervas aromáticas. Acompanhei com uma coca-cola, o que deu a soma de 7€, aproximadamente. Puxado para comida de rua, mas estamos em Roma.

- Campidoglio

- Arco di Tito

- Mercato Traianei

- Colonna Traiana

Apaixonei-me por Roma. Pelos odores, pela história e pelos sabores apurados. Não esquecerei o paladar forte do Penne all’arrabbiata, um macarrão coberto de molho de tomate rico em ervas finas, cebola, muito alho e a magia de saber envolver todos estes sabores num todo magnífico. Segue depois a Saltimboca alla Romana, acompanhada de french fries, bifes de porco finamente cortados, cobertos de bacon e um expeço mollho de vinho branco. Para terminar, um cremoso gelado de chocolate. Os sabores são de requinte do restaurante Donati (menu turístico: 17€ por pessoa).A noite termina com música suave, roupa fresca e um martini branco, acompanhado de um cigarro adormecido.

quinta-feira, agosto 21, 2008

DIÁRIO DE BORDO
- ROMA -


11 de Agosto de 2008
Foi a minha primeira viagem de avião e a distância mais longa que percorri para além das fronteiras desta minha ocidental praia lusitana.A descolagem não foi muito complicada e a turbulência sentida durante o voo tornou a experiência mais interessante. Serviram sandes de panados de queijo e fiambre, salada de fruta, com bebida à escolha. Optei por uma coca-cola e, para terminar, um café. O restante tempo, até à dolorosa aterragem, ouvi música e li um pouco.

- Chegada a Roma: Fiumicino “airport”


- Viagem de Comboio para Roma Termini

- Hotel Alpi, via Castelifardo

- Caffé e Pasticeria U.Giuliani: Calzone, massa de pizza tostada, recheada com molho de tomate, fiambre e queijo, coberta de bacon e queijo. Cerveja. Preço por pessoa: 11,5€

- Basílica Sacro Cuore


- Fontana di Tritone


- Fontana di Trevi


- Templo Adriano


- Palazzo Montecitorio

O que guardo deste primeiro dia em Itália, Roma, são os tons laranja, castanho, amarelo e magenta das construções e edifícios, de traços rectangulares e portadas nas janelas. As ruas perfumadas com aromas doces, entre as flores e o tomate a refogar, as pequenas barraquinhas de vendas, desde gelados, sandes, bebidas, lembranças, entre tantas e variadas ofertas, todas semeadas por ruas e praças ao virar de cada esquina.
As estações de metro são escuras e rudimentares e o ar é tão quente como na superfície. Roma é uma cidade quente e abafada, e os sentidos começam a despertar.

sábado, agosto 16, 2008

AMV - A bitter song (Butterfly Boucher)

All I need is a bitter song
To make me better
Much better
All I need to write is a bitter song
To make me better
Much better

It found me to hold me
But I don't like it at all
Won't feed it,
Won't grow it
It's folded in my stomach;
It's not fair,
I found love;
It made me say that.
Get back,
You'll never see daylight;
If I'm not strong it just might.

All I need is a bitter song
To make me better
Much better
All I need to write is a bitter song
To make me better
I feel better
I feel better

quarta-feira, agosto 06, 2008


Some of my puzzle key


*
Amante ou amador?



Quanto mais penso no amor, maior é a complexidade das diferentes coisas que senti (e sinto) e que memorizei (recordo) de forma ingénua. Sim, é preciso ser-se ingénuo para poder amar. Não tomo a ingenuidade como um defeito, isto quando não elevada ao extremo, o que não é necessariamente o caso. E se o amante (aquele que ama) não se acha ingénuo, questione-se e questione o outro quanto à sua própria identidade.

**
Quem sou eu?

Eu assumo a minha ingenuidade. Como amante de quem escolhi, fui ingénuo. Na verdade, não fui eu que escolhi e também não fui escolhido. Aconteceu, como sempre acontece. Não se trata daquele dilema da virgindade roubada, outras pontes foram atravessadas e esperemos que mais encontre pelo caminho. Mas de todos os rios que atravessei, nenhum outro me mostrou tanta vida, tantos sentimentos, tantas emoções, tantos sonhos.

***

Destino?


Não sei se existe. Aterroriza-me a ideia de uma força maior. A ideia de seguir um caminho trilhado após o primeiro momento de existência ou mesmo antes. Cada passo de incerteza manipulada. Um passo, um sorriso – outro, uma lágrima – mais um, o desejo – tropeço, na fantasia – caio, a dor que não é física – levanto-me, e sigo o meu caminho. Ardem as feridas deste corpo suspenso por linhas invisíveis. E a alma não é de ninguém.


****

Gémeos e balança?


Duas faces, entre a Lua e o Mar. Oscila em pratos dourados, seguros pela cegueira. É desconcertante a mudança contínua de quem não sabe que as nuvens são feitas de açúcar e que a terra está coberta de espinhos. Ainda assim, as rosas brancas são mais belas quando manchadas de sangue. Quando um anjo cai no mundo dos vivos e tenta ser Homem, perde-se nas sombras e torna-se inconstante. Vive apenas nos sonhos que projecta à fantasia e à criatividade.

*****

Por que não esqueço?


As memórias seladas num olhar. Vejo todas as ruas pelas quais errei e aqueles com quem me cruzei. Os rostos e as expressões, as vozes que me invadem no silêncio. E sempre que me vejo é na 3ª pessoa e ela sorri para mim, ou chora comigo. Abraça o corpo despido sem qualquer pudor – conhecem-se bem. Depois consigo sentir na pele aquele toque marcante, nos lábios o gosto daquele primeiro beijo, a fraqueza e a ansiedade. Os batimentos cardíacos, a respiração, o calor.

******

Entre a carne e a alma?


As correntes são de prata e ferem-me sempre que tento libertar-me. Olhas-me silencioso e sem expressão. Chego a gostar da dor que sinto quando me puxas contra ti e rendo-me quando as nossas línguas se tocam. Deve ser do teu veneno. E enquanto percorres o meu corpo, que conheces melhor que ninguém, sinto o trespassar da lâmina, das costas ao coração, vezes sem conta, sarando quando a arrancas para que a possas cravar sempre que quiseres. Sei que gostas de provar o sabor da minha dor enquanto me consomes.


*******

Quantas são as palavras?


Faço do meu sangue a tinta e de um punhal a pena com que rasgo as palavras na minha pele. Soltam-se os gritos oprimidos num casulo de medos. A criança que se contorce enquanto o corpo ganha forma e a alma se expande aos limites do próprio ser. É um problema de expressão. A língua humana é limitada e confusa. Tantos signos para a mesma existência, um turbilhão de distinções sociais e culturais que só empobrecem a verdadeira essência. E ainda assim, é nelas que me escondo, liberto e defendo.

********

Por quem sou?

Aprender um olhar leva tempo até que possa haver nele cumplicidade. O que vês nos meus olhos? Podes ver todo o mundo que me ajudares a construir. Não me mostres um quadro dizendo que é um espelho. Com que tintas me pintas-te? Com que cores? Tudo pela verdade. A partilha de um sorriso ou de uma lágrima é como um botão de rosa sem espinhos, e ambos o seguram. Aceitas o que vez? Eu aceito o que vejo e dou-te a sinceridade.


*********

Gosto de…?


Sentir o vento nos cabelos, o sol a queimar-me a pele e a chuva a embeber o meu corpo, para depois cair de uma falésia e envolver-me no mar banhado pela lua. Aquele sono profundo que me entrega aos sonhos com que me construo. Quero o prazer da solidão e o ruído de uma praia deserta. A música alta, um cigarro aceso, um copo cheio e o prazer dos amigos. Cheirar os perfumes das flores do campo e lançar-me nas nuvens brancas num céu azul. O mundo como um eterno prazer de tequila com sal e limão.

**********

Qual a verdade?


Procuro-me todos os dias. O que há para além do tempo? Não existo e tudo o resto é uma ilusão; a carne é apenas uma ilusão; os sentidos, o que é sentir? A diferença é condenada. Desintegro-me em grãos de areia, num espectro de loucura com um olhar insano. E tudo para me encontrar. Ser mais que fragmentos de algo inacabado. Ser um todo num só gesto. Abraçar o corpo, abraçar a alma, abraçar-me sem recear o futuro. Contudo ainda me sinto distante dessa realidade. Nem eu sei quem sou.

E para trás, o que restou? Um pouco de tudo, um pouco de nada. A loucura oferece uma visão que tenta a levantar questões tão complexas quanto insanas. E quanto mais questionamos, mais loucos ficamos. É um ciclo vicioso. Cada um vê como quer, outros fingem que vêm e outros fingem não ver. Eu simplesmente vejo. Agora, o que vejo, nem eu sei…

segunda-feira, julho 28, 2008


Espectros de Memória
Desperta o dia com promessas ancoradas num porto sem nome. As trevas afastam-se e até a sombra parece ter cor. Que mais poderia eu pedir que as ternuras madrugadoras? Aquele íntimo olhar e o beijo molengão. E enquanto tarda a preguiça, mais um abraço na clandestinidade de ser um só na partilha dos brancos lençóis que cobrem nossos corpos desnudados pelas carícias nocturnas. Ainda sinto o teu cheiro na minha pele e sobras de prazer.
Já se ouve o cantar dos pássaros e os primeiros raios de sol, que timidamente atravessam a janela aberta, fazem-me cócegas. As cores têm outra vida e a minha é feita de todas aquelas que conseguir inventar contigo.
Contudo ainda durmo. A ausência da tua respiração no meu ouvido diz-me que não tenho o teu abraço quente nem o teu forte batimento cardíaco. Chove lá fora e a janela está fechada. Não sei se já é dia ou se são as insónias. Apenas sei que não estás e isso enlouquece-me lentamente.
Saiu para a rua e, triste, deambulo na cidade, entre espectros de memória. Falta-me o teu jeito agridoce de ver o mundo.

sábado, julho 26, 2008


Deixa-me sentir o teu cheiro doce
E os lábios com o mel dos teus olhos;
Segue o corpo e vive em mim,
Nos sentidos, nas emoções, nos sonhos;

Rasga-me a pele que ferve às palavras
Soltas de desejo e pornografia discreta
Que a lua secretamente nos dá
À liberdade de uma janela aberta;

Sossega a brandura do momento
E às ilusões um sorriso ingénuo
Para que não te afundes em estranhos,
Para seres rei no teu império.

Song: A bitter song

Artist: Butterfly Boucher

Ouvir apenas, no silêncio dos sentidos

sexta-feira, julho 25, 2008

Vontades

Anseio o rebentar das ondas serenas contra este corpo de ninguém, percorrendo e salgando o mais íntimo prazer. Escalda de ironias e pinturas abstractas. É a linha do horizonte para o desconhecido. E a areia quente nos meus pés, a ferida aberta de uma rocha consumida pelo tempo, caída em esquecimento para os que não a querem ver.
Sinto o gosto salgado nos meus lábios: é quente, quente como o sangue. Mas não derrama, não quer tingir o mar que acaricia a nudez da minha alma. Já me envolvem os cantares ancestrais. As ondas rebentam, subindo e descendo num ritmo incerto, firme, seguido pelo vento que arranha nas rochas e nos cabelos molhados. É o canto das sereias.
O sol cega-me. Fecho os olhos e entro no desconhecido. Está fria – num suspiro de prazer. E assim que me abraça a cintura, as mãos recolhem este líquido e encostam-se aos ombros. Escorre pela pele e deixo-me unir à sua imensidão. Penetro-o sem receios e vou-me afundando. Só depois volto a abrir os olhos. A mente fica mais leve, o coração sossega e o corpo descansa. Podia morrer assim, na entrega da alma ao mar, ficando o corpo frio para trás, como oferenda ao inferno.

terça-feira, julho 22, 2008


Ser gente (em estilo de canção)

Ser gente é ter no olhar a sedução ardente
E no sangue o gosto do vinho quente;
É ter a frieza de um não ao coração,
Jamais a um anjo caído estender a mão.

Ser gente em ti é ser mármore lustroso
E das lágrimas inocentes sentir nojo;
É saber manipular e metamorfosear,
Jamais as doces imperfeições elogiar.

E eu que canto, que não sou gente?
Serei sombra ou espectro certamente,
Pois se ao amor me entrego com ternura,
Dizes ser triste e insana desventura…

Ser gente aqui é guardar os punhais
E o veneno que se espalha nos de mais;
É ter na alma um sopro de gelo,
Jamais sonhar e arriscar o flagelo.

Ser gente agora é gritar p’lo mundo fora
E caminhar em curtos passos de cólera;
É saber matar sem meias palavras,
Jamais sentir as emoções descontroladas.

E este anjo, que não é gente,
Será humano? Não é certamente,
Pois se à dor se entrega na amargura,
Dizes ser tolo, com traços de loucura…

segunda-feira, julho 21, 2008


Incertezas


Um suspiro distante
Com expressão de anjo amargurado:
Sem asas, sem garras,
Sem histórias para contar;

E a voz que vem do Tejo,
Um pronuncio que flui outras vontades:
Sem pressas, sem medos,
Sem sonhos para encantar;

Arde descomedido.
Seduz a noite à luz da Lua cheia:
Sem estrelas, sem ódio,
Sem desejos para dar;

Perdeu-se na memória
Fiada em dias de imperfeitas fantasias:
Sem rigor, sem pudor,
Sem firmeza no olhar.

"Vício De Ti" - MESA

Amigos como sempre dúvidas daqui pra frente
sobre os seus propósitos
é difícil não questionar.
Canto do telhado para toda a gente ouvir
os gatos dos vizinhos gostam de assistir.

Enquanto a musica não me acalmar
não vou descer, não vou enfrentar
o meu vício de ti não vai passar
e não percebo porque não esmorece
ao que parece o meu corpo não se esquece.

Não me esqueci, não antevi, não adormeci, o meu vício de ti
Não me esqueci, não antevi, não adormeci, o meu vício de ti

Levei-te à cidade, mostrei-te ruas e pontes
sem receios atrai-te as minhas fontes
por inspiração passamos onde mais ninguém passou
ali algures algo entre nós se revelou.

Enquanto a música não me acalmar
não vou descer, não vou enfrentar
o meu vício de ti não vai passar
e não percebo porque não esmorece
será melhor deixar andar?

Não me esqueci, não antevi, não adormeci, o meu vício de ti
Não me esqueci, não antevi, não adormeci, o meu vício de ti
Não me esqueci, não antevi, não adormeci, o meu vício de ti
Não me esqueci, não antevi, não adormeci, o meu vício de ti

Eu canto a sós pra cidade ouvir
e entre nós há promessas por cumprir
mas sei que nada vai mudar
o meu vício de ti não vai passar, não vai passar...

quinta-feira, julho 17, 2008

Murmúrios Silenciosos

Vendado caminho em passos hesitantes.
Erro pelas sombras da cidade submersa
onde cheiro a saudade em cada pedra
em que vou tropeçando.
Aqui não há guias nem avisos
nem um braço forte ou uma voz.
Silêncio! – já sinto o odor da morte
a rastejar na calçada ensanguentada.

Não me suspirem o triste fado,
almas condenadas,
não me segredem as desventuras
como punhais enterrados na carne.
A boca sabe-me a veneno.
Vai engrossando a saliva até que sequem os lábios.
E depois? – mais nada.
A noite, o mar revoltoso e a lua que se esconde.

sexta-feira, junho 27, 2008


Melancolia

Olho a pena adormecida no encanto
de ser eterna na sua leveza
e nas palavras manchadas de negro.
É submissa à vontade do criador;
arde na sua revolta embriagada
por desejos e sonhos adormecidos.

Gulosa, não me olhes assim!
A tinta com que te lambes inflacionou…
Bebe antes do meu sangue
que é amargo e quente como o vinho;
consome-o até que o corpo gele,
para que se liberte a alma da melancolia…

…de ser refém das amarras do tempo.

domingo, junho 15, 2008

I Need Love - Anime Mix

Arde-me a pele, arde-me a vontade, arde-me a alma e tudo o que vive na minha inexistência. Não sou mais que areia e pó da insanidade de ser gente, um ser humano, um mortal que se constrói e destrói em castelos de areia derrubados pelas vagas perdidas. E o corpo morre comigo, mais um pouco (de novo), para se desfazer na espuma das ondas e ser livre.
Não quero ser o sal que flúi e seca na pele queimada. Quero ser onda e percorrer o teu corpo quente e deixar parte de mim em ti, a essência que farás arder e extinguir indiferente.

sábado, junho 14, 2008


Gangrena

Dilaceram-se as memórias
Que se espalham sobre a alma
E ardem na ferida aberta,
Infectada de sentimentos e emoções.

Dói de mim uma parte do todo
Que vi fugir pela ponta dos dedos,
Suave como uma lágrima
Que gritava na ânsia de morrer.

E eu, que já morri tantas vezes,
Vejo escurecer a fantasia dos sonhos
Criados numa noite de faz de conta
À espera de ser lembrada…

segunda-feira, junho 09, 2008

Quero acordar da fantasia
Não mais ouvir vozes sinistras
Apenas o som do vento e do mar
Ser este corpo a espuma salgada
E a pele com cheiro a maresia

Colho os seixos da inocência
Que guardei em memórias vãs
Com as cores e as linhas do tempo
Das pegadas no areal
Que as ondas irão limpar

Já o corpo queimado e suado
Ferve de desejos com sede de serem
Um oásis nas dunas ancoradas
De uma praia sem nome ou vida
Para vir a ser lembrada

quinta-feira, junho 05, 2008


Assombro

A acidez que me percorre as entranhas
Borbulha na carne descoberta;
Rasga-me a pele e consome o meu sangue
Para que seja escravo insano
E que divague moribundo nas ruínas.

Velas acesas – fantasmas que dançam:
Riem e trocem e murmuram
Praguejam o desdém dos vivos.

A noite escasseia os sentidos
De quem deambula pelas lápides:
Uma tumba aberta contendo o nada
E o medo de quem a espera;
As sombras que se movem.

Uiva o vento – a Lua está cheia!
Dois olhos que surgem na escuridão,
Um esgar de malícia esfomeada…

AMV: I am Sailor Moon (Healing Vision)

Dar mais um pouco
Lutar mais um pouco
Sofrer o necessário
Sangrar a efemeridade
E a tentação de ser louco
Nas amarras da cidade

Um sonho preso
Na memória do tempo
Respira o vento
Deixa-te morrer
Renasce e vive outra vez
Sobrevive às intempéries
Faz de ti orgulho
Não dos outros
Mas de ti

terça-feira, junho 03, 2008


Nasci nos ventos da primavera, com os aromas do alecrim e do jasmim. Respiro e tacteio a essência dos ensinamentos de mercúrio. Sou filho da Lua, que meus sonhos guarda e aconchega, e do Mar, que me dá a força e a energia para sonhar. Os astros fizeram de mim um ser mutável, que oscila entre o bem e o mal, na sua forma bruta. Contudo, nunca deixei de ser mortal. Provei o sal dos meus olhos, beijados pela noite.

Sopro uma vela acesa e deixo que o meu desejo seja levado pelo fumo. Completei vinte e um anos de existência e memórias. Parece tanto, mas ao mesmo tempo tão pouco.
E quando penso em tudo o que foi, nos caminhos que segui, percepciono que todos aqueles espinhos e as marcas que me deixaram fizeram-me crescer mais um pouco.


O passado, o presente e o futuro.
A memória, a vida e o sonho.

Gosto de sonhar. Gosto de sorrir.
Gosto dos meus amigos. Gosto de amar.
Gosto de viver.

quarta-feira, maio 21, 2008


Crono

Os dias passavam como areia entre os dedos. Era a percepção que tinha sempre que consultava a lista das tarefas agendadas diariamente, apertadas nas pequenas linhas marcadas entre as horas. O tempo parecia nunca chegar. Via-se preso a um relógio viciado, que controlava frequentemente, tão louco e mecanizado quanto ele, viajantes das rotinas impostas pela sociedade e por si próprio, pelas suas escolhas.
Albergava-o uma cidade sombria e irrequieta, com seus gigantes e parasitas, num ruído constante e fumos negros e pensamentos obscuros ou emoções descontroladas, um cocktail que cria e assume a geração do victan, ou semelhantes, fervendo a droga legal no corpo e na mente, uma oferta ao estatuto distinto dos que se escondem nos vultos de uma noite pouco sóbria.
Sentia-se cansado e enjoado de tanto movimento e das corridas constantes de rua em rua, sempre nos mesmos caminhos. Bastava-lhe seguir as pegadas marcadas dos outros dias. Tomava-se como num parque de diversões macabras, em carrosséis contínuos de movimento meramente circular. Depois eram as caras, sempre iguais, máscaras que deambulavam entre si, de expressão medonha e olhar tenebroso, rindo de si e da sua condição, vazias, sem alma.
Restavam-lhe as noites de lua, em que esta se erguia no seu estado pleno por trás da serra, ostentando haver mundo para lá dos limites do conhecido. O primeiro impacto era fantasmagórico, pois as nuvens ocultavam parte do seu brilho. Não tinha medo. Era um ser nocturno, cujas ideias fluíam com os astros infinitos. Queria dormir, tinha sono, mas não se podia entregar às necessidades do corpo, sem antes satisfazer as vontades da mente. Eram escolhas, e as suas residiam na vontade de ser maior.

segunda-feira, maio 19, 2008

CLAMP In Wonderland 2 - High Quality

A cute yet short music video featuring characters from CLAMP from 1995-2006. This time, the two Mokonas are going to have a journey, meeting new friends and trouble! On the way, one of the Mokonas will be meeting some old companions.

This video features more than 50 characters. Could you name them all?

Song: Action!
Artist: Maaya Sakamoto

[Em breve farei uma pequena biografia das CLAMP, para mostrar o trabalho deste grupo de desenhadoras de mangás]

quinta-feira, maio 15, 2008


Insónias Agendadas

Estou cansado. A tinta que mancha as paginas da minha agenda sufoca-me. São dias que se preenchem em poucos minutos, roubando-me às poucas horas de sono o conforto da cama.
A mente adormece e a carne vacila de desejo e vontades enfraquecidas pela sonolência do espírito. Enoja-me esta gosma social que se prende à consciência e cria bolor. É o vómito embriagado que fervilha no pavimento de mármore, limpo por uma esfregona suja e velha como a senhora gorda que a segura e pragueja. E eu que só queria um lençol de linho, sem manchas de sangue industrializado.
Tenho fome, fome de comida, de sexo e cama. É o resultado de viver numa cidade grande e de ruas pequenas e sujas. Lá no campo tinha as ovelhas, e uma boa ovelha mata as três fomes, já dizia o sr. Zé dos queijos. Ao menos cá não me chateiam as moscas, as melgas ocupam-se disso.

sexta-feira, maio 09, 2008


I - Gosto de...
Gosto destes dias tranquilos em que desperto na cidade de Lisboa e a vejo acordar com olhos de sono. Na sombra ainda vejo os restos de uma noite de pronuncio do que será mais tarde. O Sol ilumina as ruas vazias ou ainda pouco povoadas, enquanto os jornais são arrumados nos quiosques, fermentando os escândalos e as tragédias do dia. E quem sou eu, que me faço errar pela calçada, numa passa para saciar o estúpido vicio a que me condeno? Ninguém. Restrinjo-me à minha presença nula e aos pensamentos escondidos, rebuscando memórias com as quais tento aprender. Olho em volta e deixo que o espaço me absorva na condição de ser humano.
Mais homens e mulheres e crianças fazem sentir a sua presença de gratuito em punho, com hábitos alinhados ao papel social. Alguns alheiam-se com música que mais ninguém ouve, ou apenas o ruído. E eu que me sinto turista, hoje que os vejo de fora, admiro e observo estas formigas. Também eu sou uma delas, mas por enquanto ainda estou distanciado pela pouca necessidade de correr, deliciando-me com o canto profundo da cigarra.

quarta-feira, maio 07, 2008


Nas brumas do Tejo

Trago-me escondido nas brumas do Tejo
Assombrando nas luzes de uma cidade
Que dorme esquecida na saudade
Do que um dia foi, num momento distante.

Sobre mim – as estrelas que nos guiaram
Por tantos mares perdidos na história
E que agora se apagam na memória
Do que um dia foi e não voltará a ser.

Vejo no céu a vergonha de Vénus
Pela miséria de um povo mirrante,
Enquanto Baco ri triunfante
Das amarguras de um vinho mal bebido.

quinta-feira, maio 01, 2008



Aquele Mundo

Hoje sentia-se revoltado. Não sabia porque é que existiam elementos na sociedade em que se inseria com comportamentos que ainda o chocavam, apesar de essa estupefacção durar por apenas breves momentos. Apesar de não poder afirmar que já lhe tinham passado pelo corpo e mente vários anos de experiência, porque ainda era jovem e verde, o conhecimento básico tornava determinadas situações previsíveis, que não mudavam com a frequência necessária para uma evolução aceitável. Um país de costumes e (pré)conceitos, onde a crescente alfabetização não tinha sido suficiente para ensinar as pessoas a pensar, a agirem como animais racionais que dizem ser. E tudo isto fazia-o sentir-se numa aldeia de macacos (peço desculpa aos macacos, pois muitos são dotados de alguma inteligência, visto que, alguns, quando ensinados com empenho e dedicação, até a separar o lixo aprendem): cheira-se o cu do outro, organização em grupos para melhor ataque ou defesa, funciona-se pela recompensa, cata-se os suculentos piolhos alheios, vive-se segundo a lei do mais forte.
O dia havia sido longo, embebido em cansaço, fome e um pouco de stress para saciar a ansiedade constante. Tudo o resto, assim pensava, seriam as necessidades orgânicas, um pouco de estudo e lazer até o sono chegar. Já na paragem do seu último transporte, os seus olhos caíram sobre um homem, de raça negra, que se encontrava estendido no chão, de barriga para cima e olhos fechados. A paragem – pelo menos oito pessoas, imóveis, que olhavam para a estrada ou consultavam o relógio. “Alguém deve ter chamado uma ambulância”, pensou. Silêncio. Um indivíduo aproxima-se do corpo imóvel, verifica se tem pulsação, afastando-se segundos depois para fumar o seu cachimbo tranquilamente. Foi nesse instante que se apercebeu da insensibilidade dos que o rodeavam. O homem estava ali, aos olhos de todos, mas ignorado na sua condição. Não estava morto, e só assim se atrai a atenção dos abutres. Ligou de imediato para a linha de emergência. Parece que mais alguém tinha feito uma chamada para lá. Via-os chegar agora, os outros, que não sendo cinzentos, tinham feito algo para ajudar a vítima. De resto, troca de palavras num discurso de ocasião, criando uma atmosfera pesada entre os outros, aqueles que ignoraram a situação, e que agora sentiam o desconforto de não conseguir desviar a atenção.
A insensibilidade e a indiferença pelos outros sempre foi um comportamento corrente na nossa sociedade, exceptuando quando se tratam de mexericos ou tragédias. Neste caso em particular, aliado à questão racial, também a ideia preestabelecida de que o indivíduo em questão estaria alcoolizado. Mas ainda que fosse o caso, não é admissível que cheguemos, “cheire-mos” o corpo, e continuemos o nosso percurso como se nada fosse. Esta tendência também é muito comum quando se tratam de casos de violência doméstica, em que os vizinhos ouvem todos os dias os gritos, o barulho de uma discussão e de uma mulher a ser agredida (ou criança, ou homem, ou pessoa idosa), e no entanto não agem, não chamam a polícia, não vão tentar socorrer a vítima. Aparecem depois nas câmaras televisivas, após o silêncio eterno, prestando declarações conhecedoras da agressão constante. E depois há sempre aquela desculpa que evoca o ditado popular “entre marido e mulher não se mete a colher”, ou aqueles que ainda têm a ousadia de afirmar que “se levava era porque, se calhar, merecia”.
Este era o seu mundo, a realidade embrutecida pela pouca capacidade humanística da sociedade. O mundo das telenovelas, das personalidades que expõem as suas vidas em capas de revistas, que irão depois entreter o povinho sedento pela vidinha daqueles que idolatram, para assim poderem sonhar ou comentar a tragédia, com uma estranha sensação de felicidade por constatar que há alguém ainda mais miserável. O mundo das vizinhas à janela, atentas aos passos de uma rotina que não a sua. O mundo dos jogadores de futebol que movem multidões que fazem deles deuses, agredindo e sacrificando-se por eles. O mundo de tantos outros sem nome que se perdem em vontades que não as suas ou que não irão concretizar. Sentia uma estranha necessidade de partir, partir para longe. Abandonar este lodo. Contudo, se o fizesse, seria menos um, seria tudo igual. Ainda que a situação pareça desesperante, um pode fazer toda a diferença, num dia, em algum lugar.

domingo, abril 27, 2008


Loucura do tempo

O tempo flúi
Em mim que espero
Que aguardo em silêncio

Olho os ponteiros
Troçam de mim
Riem e bocejam

O tempo flúi
Não para ti
Que não o sentes

Eu sinto
Penso que sinto
Inconstante movimento
Ardor ou desespero

Enlouqueci?
Chega!
Dói-me a cabeça…

Tenho sede
Tanta que posso matar
Não posso – sou cobarde

Esquece-me no tempo
Num sorriso apagado
Aquele que morreu

Enquanto o tempo flúi…

domingo, abril 20, 2008

A Flor Maìs Grande do Mundo (José Saramago)

“E se as histórias para crianças fossem
De leitura obrigatória para os adultos?

Seríamos realmente capazes de aprender
Aquilo que há tanto tempo ensinamos?”

José Saramago


Se, como as crianças, tivéssemos aquela sensibilidade ingénua de não complicar as palavras que dizemos, talvez vivêssemos com mais entusiasmo, aprendendo a olhar para o Mundo que sempre ali esteve, ignorado pelos nossos olhos cinzentos.

quinta-feira, abril 17, 2008


Amnésia

Porque te espero distante de mim,
Água que flúis efémera
Insana no meu pensamento?
Dar-me-ás o começo ou o fim?
O Inverno ou a Primavera?
Debilidade ou alento?

És o veneno que me adoça os lábios
Tomando conta deste corpo
Que percorres maliciosamente
Com teus encantos vários,
Os quais em loucura sorvo
Num prazer de carne ardente!

A eloquência é para os pensadores
E o amor nunca foi racional.
Tomas-me do peito o coração,
Exaltas e afagas as dores
Dizendo não ser intencional
Enquanto o seguras na mão.

Este farrapo que abandonas,
Amnésico da sua essência,
Ainda sente o decorrer do tempo,
Deixando-se engolir pelas ondas;
Ser ausente na existência
De um sonho perdido no vento.

quarta-feira, abril 16, 2008


O Dragão e a Lebre

V

Durante a viagem até à fronteira da Floresta Proibida mantiveram-se em silêncio. As palavras proferidas pelo sábio Mocho inundavam-lhes os pensamentos, criando dúvidas que erguiam entraves à sua aproximação. O Dragão temia pela segurança da Lebre. Também a confiança que esta depositara nele poderia vir a desvanecer-se. Provavelmente não voltaria a olhá-lo da mesma forma, deixando-se consumir pelo seu próprio medo primitivo, aquele instinto de sobrevivência tão comum nas da sua espécie. Notara a exitação sentida ao subir para o seu dorso, o que mostrava um certo enfraquecimento nos laços estabelecidos e na cumplicidade existente entre ambos. A Lebre olhava para as nuvens que escondiam o cume de uma montanha distante, debatendo-se perante a tensão de um segredo por descobrir. A sua natural curiosidade comprometia a sua própria vontade. Os avisos do Mocho tinham a sua razão de ser, mas não conseguia consentir que o medo e a cobardia vencessem, não desta vez. Era-lhes ocultada a verdade e sentia-se no direito de desvendar este mistério. Poderia arriscar voltar à clareira da Grande Árvore durante a noite, mas teria de aguardar pela próxima Lua cheia, só assim se sentiria minimamente segura. Mas não podia esperar tanto tempo. Constatou que se aproximavam da fronteira. Tinha de falar com o Dragão. Também ele era a chave de tudo.
O Dragão deixou que a Lebre descesse do seu dorso. Provavelmente será a despedida, pensava para consigo mesmo. E quando se dirigia à Lebre:
- Temos de nos encontrar esta noite. – disse a Lebre num tom decidido. – É imperativo tentar entender as palavras do Mocho e descobrir a verdade.
Estupefacto pela reacção da Lebre, o Dragão apenas acenou afirmativamente, sugerindo que se encontrassem no Vale das Estrelas.
Despediram-se e seguiram os seus caminhos de regresso, ansiando o reencontro nocturno.

segunda-feira, abril 14, 2008

"Only Time" [Enya] - Sailor Moon SuperS (ChibiUsa and Helios)

Apenas o tempo nos entrega as respostas. Por vezes, outras perguntas que enfrentamos no silêncio de uma noite sem Lua.
Aos sonhos, fantasias de criança, abraço-me na minha eterna razão de ser. Contudo não me lembro de quem sou.
Quem sabe? "Apenas o tempo..."

domingo, abril 13, 2008


O Dragão e a Lebre

IV

Já conseguiam avistar a clareira da Floresta Proibida, onde se encontrava a Grande Árvore. O passeio chegara ao fim. Assim que o Dragão pousou no solo, baixou-se para que a Lebre pudesse descer. Silenciosamente avançaram até à Grande Árvore. As suas raízes ocupavam quase toda a clareira e o seu tronco era largo, enrugado pelo temo que já esquecera o seu nascimento. No centro, uma grande fenda. Era nela que vivia o sábio Mocho. Tanto o Dragão como a Lebre fecharam os olhos, curvando-se como se fizessem uma vénia:
- Sábio Mocho, dá-nos os teus ensinamentos ancestrais. – pediram em coro.
Da fenda dois olhos amarelos inundavam a escuridão fantasmagórica, surgindo o velho Mocho. Olhou-os em silêncio por breves instantes.
- Um dragão e uma lebre, o predador e a presa. – afirmou, soltando um pequeno riso. – Contudo deixam-se envolver na cumplicidade de sonharem da mesma forma. E sonham. Partilham o que sonham. Talvez de um próprio segredo que voz condena sem sequer saberem.
A Lebre e o Dragão olharam um para o outro confusos, voltando-se novamente para o Mocho. Com uma séria expressão, continuou o seu discurso:
- Se não temes este dragão, Lebre, deverás temer os outros, seus irmãos. O confronto terá início antes de se descobrirem. E tu, Dragão, entregas-te a um ser menor. Tornar-te-ás renegado, e a morte é um elogio para aqueles que corrompem a aliança…
- Os riscos que corro são medidos por mim. – interrompeu o Dragão.
- Certamente. Mas e os riscos submetidos à Lebre, quem os mede? – perguntou o Mocho.
- A morte é um começo para quem sonha e a Lua protege-me. – ripostou a Lebre. – Mas diz-me, que segredo se esconde na nossa existência e que partilhamos como os sonhos?
- Lebre atrevida! – advertiu o Mocho. – Não deverias querer saber tanto, nem mesmo fiar-te em deuses ancestrais. O segredo ser-vos-á revelado por vós próprios. O tempo corre, as areias continuam a mover-se e cada grão deverá manter o seu ritmo, ou o mundo perderia a sua estabilidade. Ainda que partilhem sonhos, não deverão esquecer os vossos primórdios princípios. Tu Dragão, abençoado pelo Sol. O fogo consome a tua existência. Não deixes que te consuma a alma. Lebre, abençoada pela lua. As trevas envolvem-te e os sonhos enchem-te de paz. Não te percas nas sombras. Sigam os vossos desejos, pois chegaram tão determinados que as minhas palavras perdem-se na pouca vontade de serem ouvidas.
Dito isto, voltou para dentro da fenda, deixando a Lebre e o Dragão serem envolvidos pelo silêncio. Olharam um para o outro. O Dragão baixou-se para que a lebre pudesse subir novamente para o seu dorso. Esta exitou, mas subiu. Em breve iria anoitecer. Tinham de regressar. Abandonaram a clareira, carregados de dúvidas, deixando para trás a Grande Árvore.
Momentos depois o Mocho voltou a sair da fenda olhando para baixo:
- Em breve irão descobrir a verdade. É uma questão de tempo. Se não mostrares dignidade, serei eu a revelar a sua cegueira, aquela criada por ti.
- Mas que atrevimento, sábio mocho! – ripostou uma voz vinda das sombras. – Esqueces-te de quem sou e daquilo que posso fazer?
- O medo que crias nos outros não surte o mesmo efeito em mim. A idade ensinou-me que este apenas nos consome. Respeito-te, mas não permitirei que quebres sonhos em nome do destino. Deixa-os criar o seu próprio.
Um riso inundou a clareira e da sombra apenas se conseguiam visualizar dois olhos verdes como duas grandes esmeraldas.
- Toma cuidado, sábio Mocho. Não me faças prescindir da tua existência.
E, com uma gargalhada sonora, desapareceu na escuridão da negra Floresta Proibida.
- Que não percam os vossos sonhos. – desejou o mocho, voltando para a solidão da sua fenda.

sábado, abril 12, 2008


O Dragão e a Lebre

III

Os raios de Sol começaram a surgir por entre as nuvens que se iam extinguindo pouco a pouco, aquecendo e iluminando a terra molhada. O Dragão levantou as suas asas para que a lebre sentisse a mudança do tempo. E, pela primeira vez, esta pôde vê-lo à luz do dia, iluminado pelo Sol. As grossas escamas que o preenchiam, desde o crânio até ao fim da cauda, ainda molhadas, misturavam todas as cores de um arco-íris, dançando entre si. Já o ventre, despido e vulnerável, apresentava uma cor suave como pérola, assim como as suas grandes asas de morcego. O pequeno coração da Lebre palpitava velozmente ao admirar a beleza do imenso Dragão e, se a sua pele não estivesse coberta pelo suave pelo, branco como a neve, tê-la-íamos visto corar. Os seus olhos cinza cruzaram-se com os azuis do Dragão e, atrapalhada, desviou o olhar. Gerou-se um breve silêncio que os comprometia. Também o Dragão a olhava enternecido.
- Que fazias por aqui? – questionou a Lebre para aliviar a estranha tenção que os envolvia.
- Dirigia-me para a Grande Árvore, a fim de escutar os sábios ensinamentos do velho Mocho. – esclareceu o Dragão. – Enquanto sobrevoava o vale, ao longo da fronteira da Floresta Proibida, vi-te e apercebi-me do perigo que corrias.
- Obrigado. – agradeceu a lebre evitando os olhos do Dragão. – Não sei como te poderei compensar por me teres salvo.
- Gostarias de me acompanhar até à Grande Árvore? – propôs. A Lebre corou novamente e acenou afirmativamente:
- Sim.
- Sobe então para o meu dorso. A Grande Árvore encontra-se no centro da Floresta Proibida. Seria perigoso atravessares a floresta. Assim sobrevoamo-la juntos.
- Tens a certeza?
- Sim. E descansa, é seguro. Não farei movimentos bruscos. – prometeu o Dragão, baixando-se para que a Lebre pudesse subir para o seu dorso. Timidamente, a Lebre subiu, sentindo o calor confortável que este emitia. O Dragão bateu as suas grandes asas, elevando-se para o céu. Com o impacto, a Lebre soltou um pequeno gemido e fechou os olhos com força:
- Não tenhas medo. Abre os olhos e olha à tua volta. – sugeriu o Dragão para a tranquilizar. Ao abrir os olhos ficou admirada com o que observava. Todo o vale, a floresta e o rio iluminados pelo Sol, como que pousassem para uma tela pintada com tons vivos de aguarelas simples e variadas. As flores silvestres envolviam o verde, tocadas por uma suave brisa que as fazia balançar suavemente. O olhar da Lebre perdia-se em tanta diversidade e no esvoaçar ingénuo das borboletas. Ao longe, o rio, parecia coberto de pequenos cristais reluzentes. Sugerindo um pequeno desvio, o Dragão dirigiu-se para o rio, num voou suave e rente ás suas águas límpidas.
Alguém os observava na margem do rio, escondido na sombra de um salgueiro-chorão. Olhava atento para o Dragão e a Lebre e para os seus reflexos nas águas do rio. Não viam eles a verdade reflectida pelos seus olhos verde-esmeralda. Apenas sorriam, cúmplices do seu próprio destino.

quarta-feira, abril 09, 2008


O Dragão e a Lebre

II
Sentiu o dia aproximar-se com um pronuncio tempestuoso. Não conseguira dormir, sempre que fechava os olhos na tentativa de uma viagem pelos seus mais vastos sonhos eram os olhos do misterioso Dragão que lhe inundavam a mente e a alma. Contudo, e apesar do cansaço físico, as tarefas habituais não a deixariam manter-se pensativa por muito tempo, até porque se tinha de apressar, não fossem as condições atmosféricas agravarem-se.
Saiu da toca, como todas as manhãs, em busca de um pouco de ar e mantimentos. O vento era forte, mas não se podia dar por vencida. Sabia que iria encontrar o que precisava na fronteira da Floresta Proibida. Apesar do medo que sentia, era o único sítio que lhe ocorrera onde poder-se-ia servir do que necessitasse para a sua humilde sobrevivência. A solidão criara-lhe o mau hábito de realizar monólogos em silêncio, que se traduziam por sons ou pequenos gemidos sempre que um obstáculo surgia. Conversava sobre si para si, na expectativa de encontrar respostas para as perguntas incertas que a intrigavam. Neste dia, em especial, era assaltada com questões referentes ao acontecimento da noite anterior, no Vale das Estrelas. Conhecera um Dragão que a fizera sentir um misto de medo e curiosidade. Nunca antes tinha estado tão perto de um, apenas ouvira histórias sinistras dos comportamentos e hábitos carniceiros que estes exerciam antes de consumirem as suas presas. Mas este era diferente, tinha um olhar doce. Era como se todo ele se tivesse tornado num sonho.
Finalmente chegara ao seu destino. Era essencial limpar a sua mente de todas essas imagens e pensamentos para que se pudesse concentrar e recolher mantimentos o mais depressa possível. Era uma zona insegura. Nunca gostara de fronteiras pois não eram nem deixavam de ser. E por momentos desejava encontrar novamente o Dragão, ser surpreendida pelo seu olhar. O vento ficou mais forte fazendo-a voltar à realidade. Apressou-se e iniciou o regresso. O temporal atrasava-a, dificultando-lhe a visão. Os deuses deviam estar mesmo descontentes. Pressentiu ao ver as árvores distantes curvarem-se que, em breve, chegaria até sim uma corrente de ar tão forte que certamente a derrubaria. Era o fim. O medo contaminou-a, fazendo-a fechar os olhos com força e enrolar-se sobre si mesma. Aproximava-se velozmente, conseguia senti-la. Soltaram-se as lágrimas da despedida, como pérolas que se perdiam na imensidão do tempo. Até que algo a envolveu e o estranho calor que sentia perto do seu corpo fê-la abrir os olhos novamente. Não podia acreditar, era o Dragão que a envolvia com as suas longas asas protegendo-a da tempestade.
- Não temas, nada de mal te vai acontecer. – prometeu o Dragão.
- Mas porque me ajudas? – perguntou a Lebre, confusa.
- Os sonhos são eternos e a tua existência tem a sua razão de ser. – e olhou-a com os seus grandes olhos, com uma terna expressão.
E permaneceram, silenciosamente, olhando um para os olhos do outro, aguardando o cessar da tormenta.

terça-feira, abril 08, 2008

Ah! Megamisama Rainbow

O desejo que hoje consumo
Não é mais que a ânsia de sonhar
Partilhar parte de um todo
Parte de mim, parte de ti

Uma mão estendida
Que seguro para não me perder
Porque as sombras são densas
E a luz trouxe-me a Lua

Dorme anjo perdido
Para que te encontres
Não neste Mundo que habitas
Mas na fantasia de um olhar

Doce com toque de ceda
A minha pele anseia-te
E os meus lábios pedem mais
Desse teu néctar floral

Um sonho que atravessa a ponte
Cresce e aquece a alma
Parte de mim, parte de ti
Um todo de magia

segunda-feira, abril 07, 2008


O Dragão e a Lebre

- I -

Naquela noite a Lua fê-la sair da sua toca. Sempre gostara de a apreciar, de se ver envolvida pela sua luz, mas o medo dos predadores obrigavam-na a refugiar-se. Mas desta vez não conseguiu resistir e dirigiu-se para onde a pudesse observar melhor. Ao chegar ao Vale da Estrelas, deixou-se ficar, entre flores silvestres que se movimentavam ao sabor da suave brisa primaveril, libertando doces fragrâncias. Cedeu então ao brilho majestoso, perdendo-se na imensidão dos seus humildes sonhos.
Foi então que um vulto fez despertar os seus sentidos. Olhou para traz e a visão oferecida pelos seus olhos fê-la paralisar. Estava diante de um Dragão. Este olhava-a silenciosamente sem qualquer movimento que não a sua respiração. Por breves momentos, ficaram parados, olhando um para o outro: a Lebre porque receava pela sua segurança e o Dragão pela curiosidade. Ao ver que assustava a Lebre, voltou-se para a Lua, contemplando-a. “É o momento ideal para fugir”, pensou a lebre, mas não o conseguiu fazer. Intrigava-a a estranha paz do Dragão e os seus olhos de sonhador. Deixou-se ficar também.
- Porque estás aqui? – perguntou o Dragão, fazendo a Lebre tremer novamente.
- Vim observar a Lua, que há tanto tempo não o fazia. Faz-me sonhar! E tu?
- Também tenho o mesmo gosto, de sonhar incessantemente, sempre na ânsia de querer mais.
- Não me vais fazer mal?
- Descansa, enquanto aqui estiver poderás apreciar o momento que tanto ansiavas. Não temas por mim, mas pelos outros.
Fez-se novamente silêncio. Apenas as melodias nocturnas os envolviam. E desejaram que assim fosse, por mais um pouco.
Antecipadamente, a lembrança da sua segurança fez com que a Lebre sentisse a necessidade de se apressar. Despediu-se do Dragão, prometendo voltar no dia seguinte. O Dragão sorriu docemente, vendo a Lebre afastar-se. Talvez assim fosse o destino. Nunca se sabe o que a magia de um sonho pode trazer. E melhor que sonhar, é partilhar os mesmos.

sexta-feira, abril 04, 2008


Se a porta se abrir
Não deixes encerrar o sonho
Nem me digas que foi ontem
E que hoje já é tarde

Abre a janela do Sol
E deixa a brisa entrar
Com pétalas de faz de conta
E um sorriso tímido
Respira a vida
Faz de ti sonhador

Quando faltarem as ternuras
Que o habito velho deixou
Cria uma história
Feliz como as outras
Mas só tua

E se não chegar ao coração
Vive a primavera
A cor das flores simples
E seus doces perfumes
Dias

Sempre soubera que o despertar seria o começo para um dia que não queria certamente ter, mas como as surpresas existem, arriscava sempre, até porque as obrigações a que se tinha comprometido assim o exigiam. Ainda de olhos cerrados e com o cérebro embrutecido pelas escassas horas de sono, desligava aquele velho despertador que emitia um som que não inspirava boas vontades. Achava arrepiante aquela invenção. Como poderiam as pessoas sujeitarem-se a estranhos instrumentos, distribuidores do chamado “mau humor matinal”. Até ele se tinha deixado consumir por esse hábito. Era o que as grandes cidades e a competição excessiva traziam, mau humor e noites mal dormidas. Estúpidas regras e putas daquelas que as tinham feito, ou cabrões se forem homens, pensava. E então arrastava-se pelo quarto, procurando num monte de roupa aquela que iria vestir, com a preocupação de não fugir a um estilo que ele próprio tinha traçado.
O primeiro contacto que tinha com o corpo era aquele arrepio provocado pela água quente do duche. Era também o primeiro, e talvez o único, prazer do dia. Sentir-se embebido na transparência e nos odores perfumados com que envolvia o corpo magro e sem linhas definidas. Dedicava sempre dois ou três minutos para ficar simplesmente debaixo do chuveiro e sentir os ombros serem massajados por um ser inexistente. Chegava a sentir-se apetecido, até ao momento em que lhe vinha a preocupação de desligar a água, limpar-se e vestir-se, com aquele pensamento irritante de “vou chegar atrasado”.
Depois saía, ao som de uma música qualquer escolhida na véspera que o fazia sentir-se mais animado que o ruído urbano. Já lhe bastavam os odores dos tubos de escape que arrotavam nuvens de fumo negro e os encontrões de gente mal educada, confinada à pressa de serem bactérias sociais.
E era sempre tudo igual, visto à transparência de não ser vidente e de não possuir uma bola de cristal bem polida. Cansava-o mais a semelhança dos dias que as tarefas dos mesmos. Mas talvez fosse diferente amanhã e sentia o desejo de lutar para concretizar essa mesma vontade. Ser cinzento como os outros com que se cruzava na rua não era propriamente algo que o iria fazer sentir-se concretizado, até porque já bastavam as construções que se debruçavam sobre si, na ameaça de ruir só pelo gozo de fazer correr mais um pouco de sangue que pudesse fervilhar na calçada suja pelos mendigos e engravatados, abrindo manchetes de jornais gratuitos e pagos, sempre com o sensacionalismo de criar aquela estranha felicidade de ter acontecido ao outro e ser tema de conversa por dois ou três dias, até algo mais entusiástico suceder.
Metade do dia era dedicado a ouvir ensinamentos pré concebidos e a registá-los para mais tarde os saber vomitar para uma folha qualquer para que alguém avaliasse todas as partículas, na ânsia de encontrar algo mais criativo para rasurar ou a ausência da palavra que ditara na oitava oração e que escapara ao aluno desatento. O que lhe valia eram os sorrisos dos colegas que adoptara e que o tinham adoptado, em cumplicidade de terem sonhos semelhantes e aventuras a partilhar, entre almoços no bar da faculdade ou num pita shoarma ou, em dias de Sol, por jardins verdes, com direito a sessões fotográficas ou leituras jornalísticas, de phones nas orelhas e comentários oportunos. A outra metade era a tensão laboral de cumprir um objectivo traçado pela sorte, adormecido na ausência do raciocínio intelectual ou algo mais prático. Era uma máquina ligada a um telefone e a um computador obsoletos, numa grande empresa, como sempre são, independentemente das condições que oferecem. Pensando bem, as condições eram melhores que as das crianças de um país subdesenvolvido qualquer, que cosem bolas de futebol e ténis, que mais tarde serão calçados por meninos endinheirados e consumidos pela necessidade da moda, para que possam ter direito a uma malga de arroz mal servida. E nós por cá, sub nutridos de inteligência.
É já na véspera de um novo dia que se tranca no seu pequeno quarto, percorrendo a consciência de não ser infeliz, mas de também não poder afirmar que é feliz. Embrenha-se na sua estranha vontade de ser algo mais e de partilhar a sua existência num terno abraço e num beijo apaixonado. Romantismos à parte, deseja que o sono chegue e, enquanto se faz difícil, troca palavras que cria e recria, muitas vezes na ansiedade de serem ouvidas.

quinta-feira, abril 03, 2008

KOKIA - Ai no Melody AMV (Various Anime)

anata marude komorebi no you ni
watashi ni ikiru kibou kureta shiawase ga waratta

kioku no naka no nukumori mune ni
nani yori mo tsuyoi kizuna wo kanjite iru wa

watashi ga watashi rashiku irareru no wa anata ga iru kara

*1 anata wo ai shite umareta uta wo utaou
watashi no ai no akashi ni
shinjite doko made mo todoke watashi no omoi
anata ga ikite iru koto ga shinjitsu

*2 itooshikute ureshikute kanashikute setsunakute
kuyashikute modokashikute... ai no MERODI-

karamiatta kokoro no ito wo
tokihogusu mae ni wakareta tsurakutemo nozonda

"kono ai wo tsuranukou" hitorigoto no you ni
‰i‹v(towa) ni chikai wo tateru

itooshisa ni tsutsumareru MERODI- maiagare sora ni

sono “µ(me) ni mienai taisetsu na mono wo miseyou
afureru ai no izumi ni
omoi wa doko made mo fukaku toki wo koetemo
ikite yukeru sore ga watashi no ai no uta

mmm fureru hada wo toiki ga nozoru
"nee mou nechatta no?" sore nara mimimoto de "I love you"

*1 repeat

sono “µ(me) ni mienai taisetsu na mono wo miseyou
afureru ai no izumi ni
anata to deatte nagaredashita kono MERODI-
furuete iru ima kono toki mo ikiteru

*2 repeat 2x

terça-feira, abril 01, 2008

No silêncio de uma noite solitária
O silêncio fê-lo sentir que já a luz se recolhera, abraçada pelas sombras irrequietas a que chamam noite. Não era mais ninguém e não queria ser. Ser-se assim, na simplicidade das palavras que ditava para o vazio, em pausas para um cigarro mal aceso. A invisibilidade da existência que traçara aos olhos da mente alheia não o admirava. Não era mais que aquele vulto incómodo, que caminhava, errante, pela cidade triste quando o tempo o permitia. Na verdade não era a cidade que era triste, pelo menos em dias de Sol, em que a capital mostrava os seus pequenos encantos, numa magia viciante e alucinogénia por vezes, num miradouro com vista panorâmica para um Tejo adormecido pelo canto das Tágides.
Era jovem e a forma como encarava as emoções arrepiavam-no. Sempre aquela busca incessante por uma parte que o completasse e, apesar de tudo, não a encontrara. Talvez não existisse ou se fizesse modesta. E essa solidão afastava-o por uma porta aberta para a imensidão de um sonho que se fizera desde que descobrira o significado da palavra amar. Eram todas aquelas estrelas que o olhavam quando se deitava na areia humedecida pela noite, enquanto o mar rugia e a lua o escutava, que o faziam inundar-se de sonhos e fantasias como parte da sua própria existência, humilde.
Sentia frio, frio de um toque que insistia em não chegar, em não o envolver em ternuras eternas do que é o presente, sem passado ou futuro, porque o primeiro cheira a mofo e o segundo só o fazia pensar de mais. Mas para que não me perca, o abraço faz-se tardio e o sufoco de um beijo profundo agonia-o por não existir.
Embrulhado numa manta, relembra o Verão com o gosto salgado da pele quente e aqueles mergulhos na rebentação das ondas. E sorri, com a imagem daquele sorriso de gargalhada contida, porque era tímido de mais para dizer que era feliz. E mesmo quando fazia um beicinho de descontentamento, o pequeno coração palpitava de desejo que tudo aquilo acabasse para se poder deliciar com o calor do Sol numa toalha amarela e ler-lhe aquelas notícias que mais ninguém queria ouvir, com a preocupação de não lhe falarem as palavras que os outros haviam escrito com tanto empenho, ou talvez nenhum, o que não era importante, porque importante era o momento em que as lia em voz alta.
Mas voltando agora à fria noite de primavera, tudo o resto são pequenas histórias que guarda em si ternamente, porque não aprendeu a odiar. Uns diziam-lhe que era mau, outros que era bom de mais. Já não se confundia, sabia que não podia ser do bom gosto de todas as bocas, apenas daquelas que realmente lhe interessavam.