O Primeiro Mergulho
Dava de si o corpo mergulhado na sua agonia de existir, pobre gato boémio. Ver-se respirar em palavras licorosas de todos os dias, e agora escasseia o ar sob os pés inventados pela pobreza de um deus arrastado. A culpa não é da cidade que o abraça, não é a vida que o mata, é qualquer coisa que não se sente se não na sua insensata observação das sombras do mundo.
Hoje vi-o sentado num muro alto e branco, cheio de sol, de olhar cansado e pachorrento. Não me quis aproximar, ardia nessa luz de que sempre se escondera. Mais tarde circulava novamente, tentando-se ao destino de outras viagens. E depois desapareceu…
Este sal deu-me o corpo branco na rebentação das ondas, e o vento a abraçar a pele com um cheiro doce. Tão mais fácil conhecer a ingenuidade da vida numa gargalhada perdida num oceano, de mais ninguém. Como se pode esquecer o inesquecível? Como se pode adormecer conscientemente? Este paladar com um toque despreocupado na ponta dos dedos, enquanto se partilham histórias sobre o tempo. Correr foi diferente, foi ser livre. Ser-me livre…
Encontrei as suas palavras guardadas numa garrafa sem rótulo. Vou deixar a janela aberta para quando quiser voltar.
segunda-feira, maio 31, 2010
terça-feira, maio 11, 2010

Chagas
O Homem é carne feita em fantasia
Num molde de imaginação fértil
Velho de seu uso para uma morte estéril;
Não lhe chega a saber o que é ser criança…
Não lhe chega!
Ensurdeceu-se numa multidão
Um povo a dar-se de comer aos pombos
Nem os oiço chiar
São poucos os que fervem com gosto
São uns pudicos com ideias,
São uns idiotas quaisquer,
São o que são e o que não quiseram ser.
Mas será que chega?
segunda-feira, abril 05, 2010

Saber saber
Saber encontrar-se num pormenor
Essa insensatez mesquinha
Sorria para as tempestades urbanas
Sem o pudor dos mendigos;
Saber ser – exige-se orgulho!
Esse complexo de pequena vontade
Fazia de ti barqueiro no mar azul
Que lentamente te abraçava.
Saber sentir-se na liberdade do vento
Esse tempo que escasseia nas palavras
Erguidas como velas sobre os astros
De um mundo inteiramente seu;
Saber ver – o olhar de um anjo!
Essa perversidade ingénua
Em que se desconhece mais que do mundo
O sonho de uma criança…
Restos de fogo, o fumo de ontem;
No corpo a guerra, na alma a guerra!
Resta saber o que sabem os Homens
De Si, dos Outros e do Mundo?
domingo, abril 04, 2010

Lembrar hoje, construir amanhã…?
O império é na sua mente um comum abrigo inflacionado, tudo o resto são pequenos blocos coloridos pela criatividade de cada um. Não vive de sonhos porque sempre que os abraça são de areia a esvair-se nas suas mãos vazias. Disse-mo enquanto murmurava as gordas de um jornal datado, sem nunca me olhar nos olhos. Ambos sabíamos que era melhor assim, apenas palavras soltas para não nos embrenharmos na melancolia das nossas leituras incompletas.
Lembras-te de quando éramos pequenos? Tu construías os mundos que eu desvendava numa caixa de cartão. Mais tarde cantavas numa folha de papel as palavras que embebia em tinta-da-china. Lembras-te?
Agora procuramo-nos na janela embaciada da madrugada e nunca sabemos se nos veremos nela, ou se apenas o toque húmido e frio da sóbria existência. Já não se sonha ingenuamente. Amanhã dormiremos de janela aberta para deixar entrar um pouco de lua…
sábado, abril 03, 2010

Analgésicos
Ontem acordei na paisagem dos teus olhos
Essa fantasia anestesiante.
Dá-me morfina!
Rouba-me as palavras para que não lamente
A expressão ausente;
Corta-me a língua para que não prove o sal
Desses mares em que navegas.
Dá-me morfina!
Deixa-me adormecer no fogo da pólvora
Ensurdecedora tempestade;
Queima-me a pele
Não quero sentir a posse do corpo…
Desejam-se insensatas virtudes
A definição de uma perpétua nudez marmórea…
terça-feira, março 23, 2010

Será que sentem esses mendigos
Em que se distanciam esculturas de vidro
Os licores dos sóbrios esquecidos?
Será gente perdida – será gente?
Fingem não saber o que se fez ver
Desse peregrino orgulho – qual marcha triunfante,
Vontades sem voz nas veias a ferver;
Monstruosidade, sua majestade possante.
Porque pequeno vês se é grande o olho
Grande como Sol, como a tua própria sombra?
Talvez não mais que um sonho
Em que a Deus confessadas frustrações
De leigos – essa prostituição latente.
As ruas cheiram a mofo
São como trincheiras e livros de história;
Mais um copo de vinho ao velho louco
Mais um brinde à sua glória!
Cansas-me de como ver as unhas crescer
Cheias de terra, cheias de medo;
Cansas-me! Inútil sobriedade febril!
…E toda a tua questionável sensatez
Fez-me não ser de ti mais que um acaso….
sábado, março 13, 2010
sábado, fevereiro 27, 2010
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Um Naufrago, talvez…
Sou mais que matéria orgânica
Essa fonte consumida pelo tempo
E o resto ferve inconsciente
Combustão de actos, ideologias, emoções
Onde a carne guarda o olhar
As minhas palavras nos teus gestos
Os teus gestos nas minhas palavras
Fermenta o veneno de outros dias
Perdendo-se o corpo nas tuas mãos
Esse fumo que se dissipa na neblina nocturna
Fúnebre olhar o nosso
Tão cerrado que não se vê
De mim – talvez nunca tenhas existido
Talvez se tenha perdido, talvez…
Não sou o corpo, não sou a terra
De que te valeram as conquistas,
Todo esse sangue perdido por capricho teu?
Ainda nos conseguiremos ouvir?
Foram palavras naufragadas
Um esgar de sorte
O respirar desse mar silencioso
De tão profundas distâncias
Talvez o infinito, se não se perderem.
terça-feira, fevereiro 16, 2010
Saudade, essa expressão melancólica, esse tédio de respirar. Não me contenta a espera, a sensualidade subtil adormecida. Anseia o corpo a liberdade de ser o vento numa falésia azul, perder-se a noção de Newton e o veneno da sua maçã. Caí na tentação de a morder e apenas recordo o doce ardor a escorrer-me pelos lábios ainda quentes; tudo o resto dissipou-se sem a mais pequena justificação, porque essas coisas não se justificam, sentem-se apenas, fervem por dentro e da espuma surge a saudade.
Como posso ter saudade do que nunca tive? Será verdadeiramente saudade a noção de ausência concreta do que se idealiza e sonha intimamente, mesmo sem nunca ter provado o antídoto do nosso próprio veneno? Digo-o porque apenas brinquei de alquimista, de inventor do eterno capricho dos meus sonhos infantis.
E porquê sonhar quando o sonho não nos basta? Não me contenta ou satisfaz a réstia de luz de um profundo sono, mas ainda assim deixem-me dormir.
domingo, janeiro 24, 2010

Faço-me perder na Cidade entre malabarismos de fogo e sombras velozes. São tão poucos os sinais, facilmente extintos nas almas de gente igualmente fácil. Não oferecidas, mas levianas no modo de pensar e agir, de vista turva sobre o trânsito das tarefas diárias. Também serei assim, hoje ou amanhã?
O meu passo apressado é a fuga de instinto selvagem a que me dou de modo automatizado. A lebre assustada que cheira os caminhos alheios e escuta o longínquo, só para não correr o risco de ser surpreendida por um qualquer gesto. Que predador terei guardado inconsciente, no sono reprimido e na vertigem exaltado?
E porque apenas me liberto em palavras silenciosas ao invés de confiar na sua expressão sonora quando empregue num simples verbo ou acção. Não sou bom actor, não tenho a arte de reciclar emoções em sensações causa-efeito. Se ganharem voz, moldam-se ao pensamento imediato. A sinceridade mata. E entre tantas coisas simplesmente humanas, sabe-me o risco da insónia ao mais profundo suspiro.
Pudesse eu ao menos ser a estável metamorfose fria a erguer-se da fantasia. Mas quem seria eu? Talvez outro humano na sua miserável insensibilidade afortunada. Será real essa existência ou apenas uma camuflada expressão de vulnerabilidade discreta? No fundo, a força, não os impede de morrer nos escombros do seu pensamento, é a utópica segurança desses audazes peregrinos, desses suicidas inconscientes.
domingo, janeiro 17, 2010
Como poderei ter esquecido as palavras, mesmo antes de verdadeiramente as conhecer, se delas faço parte como um todo, como o simples ar que respiro? Talvez desconheça o meu próprio sentido e tenha, assim, renunciado à interpretação obscura dos pensamentos vertidos de uma alma inquieta, para que não me reveja na sua essência, nesse auto-flagelo. Na tentativa frustrada de projectar nos outros essa imagem pálida e baça, reconheço o excessivo drama enaltecido por emoções e sentidos que só as palavras descortinam em jeito poético.
É a poesia em mim um fervilhar de coisa nenhuma, o magma nas artérias sob uma crosta de pó e areia, de questionável valor, uma exposição amontoada de razões desprovidas de razão, de loucura (in)consciente, de uma vontade de vomitar tormentos insignificantes, um quase sufoco no próprio líquido amniótico. Num mero acaso, o rasgar da placenta, das vísceras e da carne. Libertar-me, num mero acaso.
Sou o meu próprio inimigo. E o Mundo é a minha pequena masmorra.
terça-feira, dezembro 08, 2009

Veja-se o corpo despido do mundo
Sobre si mesmo o renascer
Sem viva fonte, um elo ausente
Veja-se o corpo na sua forma
E o profundo à sua volta:
Estilhaço de lua, ar que se afasta
O fogo que se apaga devagar
Resta o desejo de sentir o vento
Um simples respirar.
Os dedos perdem-se na procura
Num alcance que se afasta
E no olhar a expressa loucura
De um cisne que se devassa…
sexta-feira, outubro 30, 2009

Ousar ser Livre
Quem deu ao mar a sublime liberdade
De ser mais que o toque salgado num corpo quente,
O rugir a dissolver-se na espuma branca,
Quem a deu esqueceu a alma.
(Querer) Ir além da noção física que a carne envolve
Superar a fome e a sede
Os sentidos, a gravidade - (a civilização?)
Rasgar os preconceitos da língua!
Fluir apenas, como quem respira.
Quem se esqueceu de esquecer os “outros”,
Esses que nos vêem quando não os vê-mos:
Um olhar que se afasta, uma alma que se apaga
E prende mais um pouco…
Ousava ser o rebentar das ondas,
Ir além de todas as condicionantes e politiquices
Onde sempre serei mortal…
Mas quem deu ao mar a liberdade
Não esqueceu a arte de sonhar.
domingo, outubro 25, 2009

Era eu a fome contida no seu silêncio
Sem palavras a quem deixar o desespero;
Era eu por dentro:
Uma espécie de (des)construção maciça,
Sobreposta ideia (in)constante;
O segredar de um desejo próprio
De quem se desconhece mais que do mundo.
Era tantas coisas, e coisa nenhuma,
Um espelho embaciado e um corpo molhado
No seu sal, na aridez rochosa de qualquer falésia.
Era vertigem num céu de lua branca!
(Des)faço-me na penumbra das manhãs
E não me vejo senão em recatado caminho;
Escondo-me do fogo que respiro
Da (in)consciência de que existir é um gargalhada…
E eu que detesto circos e palhaços.
segunda-feira, setembro 21, 2009

Espiral
É o Mundo não outro que pequeno quintal
Nosso, deles, de ninguém ou de si mesmo
Em profundo pensamento estéril.
O Mundo é uma espiral ao meu olhar
E o que sou encerra-o num esgar soturno
Para que cuspa o sangue e a fome;
Essas palavras são de fome e não de sede
Porque sede tenho eu e não bebo.
Face ao mundo que não é
De tudo aquilo que eu não sou - fui - serei
Porque não me sou, nunca me sou;
Uma espiral que não encerra o seu gesto circular.
Sou uma espiral de argolas irregulares
Não de argolas, que não se unem
Como eu não me uno ao mundo, nem a mim nem a ninguém,
Vou-me reinventando sem escrúpulos
Sem sentido de metamorfose.
E o mundo é pequeno quando o atravesso
As ruas são pequenas, os cafés são pequenos
As almas são pequenas e assim as palavras.
Eu, que não sou grande, não consigo ter espaço
Não consigo respirar entre tanta gente,
Um sentimento de claustrofobia que se repete
Entre as mesmas máscaras pintadas de branco
Tão complexamente vazias na sua fútil existência.
É o mundo pequeno e as pessoas pulgas,
Parasitas de máscara branca com olhos de porcelana,
A vazia igualdade expressiva - sugam vida
Não a sua, mas entre si, canibalescas
Consomem-me também
Se adormeço no seu tédio de existir,
Não me sabendo ser se não no recomeço
A espiral a que me faço ser repetidamente
Sem nunca ter nascido, sem nunca vir a morrer,
Porque não sei ser outro que não isto
Num mundo pequeno como os seus,
De pequenas vontades e destreza para sonhar.
Todos pequenos, todos iguais, num qualquer sítio
Talvez numa espiral, talvez;
Talvez bebendo mais um copo
Esquecendo vidas tão pequeninas;
Quase podia sorrir pois não as teria de ver,
Essa histeria de viver sem uma história.
Glória, ó Glória povinha
Que se assombra nos astros de ontem
Uma sombra perdida na sua noite
No mais profundo silêncio
O Mundo é excessivamente pequeno
segunda-feira, agosto 31, 2009
Palavras PequenasA vida do gato boémio persegue-me enquanto durmo. Aquela sensatez bebida de quem se esconde no próprio grito já não me intriga, é ver o orgulho ferido quando o relembro entregue à melancólica melodia que trazia nos lábios, a cobrir os olhos com as mãos frias, que me faz as palavras de inocente simpatia.
Soube que nasceu sem nome. Cada um deu-lhe o que quis (diz ter muitos). Mostrou-se como gato boémio com letra pequena num guardanapo de papel com café. As palavras são pequenas, como eu, num papel onde se limpa a boca que os outros sujam e amachucam e deitam fora. O café é para dar genica ao pulso.
Não é o nome a forma que atribuímos à face da lua? A simplicidade desses signos, a ligeireza para uns, a grandiosidade para outros, apenas a vontade de um sentido. Tudo o que as mãos não sentem esconde-se nessa máscara de porcelana, tão bela, brancura pálida coberta de uma de muitas cores, um traço por cada sonho.
quarta-feira, agosto 26, 2009

O que ontem encenei, com os gestos postos sobre uma audiência furiosa, foi a dança perpetuada de mãos alheias. E hoje, a liberdade caustica permite-me recriar a vontade de um sonho, inflamando o corpo numa tentativa mesquinha de limitar a extravagante construção do meu castelo.
Como alma retalhada quedo-me a um canto mal iluminado. Não vejam nos meus olhos os devaneios púrpura que evadem e despertam a cidade. Não seria sensato deixar permanecer a insegurança desta gente. Que não os vejam para que fiquem, para que não mos levem.
Só depois veio o gato boémio. Não sendo dado a conversas com estranhos, declamava façanhas afagando os bigodes cuidados. E eu ouvi-o numa noite madrugadora, partilhando de seus vícios. Exausta perspectiva da inconsciência prática, como quem bebe um copo de vinho tinto ao som de jazz e do crepitar do fogo intelectualizado. Ouvi, na delícia do sumir das estrelas, um cocktail de sonhos miseráveis brindado ás suas loucuras gulosas.
O que recorda é a ansiedade, foi tudo o que lhe restou. Não foi a casa que ardeu. O fogo vinha de dentro, sem queimar, estava no peito a consumir-lhe o ar que respirava, e o corpo pedia mais. Foi necessário lançarem-no ao mar numa noite fria de Janeiro. Abraçou-o sem receios e adormeceu.
sábado, agosto 15, 2009

O silêncio é infinito nos lábios de quem não ouve. Uma mistura química, o gosto quase doce a escorrer nas mãos quase frias. É o silêncio.
Um quase silêncio atrofia. O ranger de uma porta até que finalmente se dissipa com o estalar do trinco. Passos vermelhos no soalho escuro. Um quase que não é. Um quase resulta no zumbido da lâmpada, a pedra do isqueiro e um suspiro cinzento.
E tu olhas-me. Fecho os olhos para não me veres. Era um espelho. Os espelhos e o quase silêncio atrofiam. Ou é cá dentro que se contorce contra as paredes conscientes. Uma quase ironia que as palavras não sentem, é falso dizer que sim.
terça-feira, junho 23, 2009
Sou desnecessário e descartável.
Reciclável?
Já tentou, má ideia, estoirou-lhe na cara de bicho.
Lixo.
Já fui pior.
Aceitável, digamos, mas só para alguns.
Os outros não me conhecem.
Ainda assim falam, muito se fala nesta praça…
E a culpa é de quem?
Minha?
Tua?
Nossa?
Deles?
Vamos tentando arranjar desculpas para o indesculpável.
Ás vezes tenho sono e não consigo dormir.
Outras não posso.
Não quero.
Arrasto-me da cama para a casa de banho.
Da casa de banho para a cozinha.
Da cozinha para o quarto.
Do quarto para a rua.
E a aventura começa numa correia estupidamente desnecessária.
Um livro, um sorriso.
Um livro, um misto de emoções.
Palavras simples, palavras rebuscadas, debruçadas sobre a mente.
Morrem depois no silêncio de nunca serem ditas.
Na língua seca, numa boca amarga.
Num ego desfeito.
Se sou feliz?
Sou.
Se sou louco?
Talvez.
Sim.
Faço um esforço.


